quinta-feira, janeiro 01, 2026

Salmo 116 - Teologia do Coração

 

Teologia do Coração

João Cruzué

É profundamente comovente ouvir alguém dizer "eu amo" não como uma declaração romântica ou casual, mas como o testemunho de quem foi resgatado. O salmista não começa sua história com doutrina ou teologia, mas com o coração exposto diz: "Eu amo o Senhor". E a razão é tão simples:  "porque Ele me ouviu". Às vezes, ser ouvido é tudo o que precisamos. Quando estamos afundando, quando a escuridão nos engole, não precisamos de discursos pedagógicos ou soluções instantâneas. Precisamos de alguém que escute nosso grito silencioso, inclinando-se em nossa direção.

As "cordas da morte" e "angústias do Sheol" carregam um peso que só quem já esteve lá consegue compreender. Existe um lugar na alma humana onde a luz parece ter se apagado completamente, onde cada respiração é um esforço, onde o amanhã parece impossível. Pode ser o diagnóstico que muda tudo, o luto que parte o coração ao meio, a depressão que rouba as cores do mundo, o fracasso que esmaga nossa identidade. O salmista não nos oferece respostas fáceis ou frases motivacionais. Ele simplesmente nos diz: "Eu também estive ali. Eu conheço aquele lugar".

E então vem o clamor. Não uma oração polida, com palavras cuidadosamente escolhidas. Apenas "Ó Senhor, livra a minha alma". Há tanta beleza nessa simplicidade. Quantas vezes nos sentimos inadequados para orar porque não sabemos o que dizer, como dizer, se estamos dizendo "certo"? Este salmo nos confronta com uma verdade libertadora: quando não há mais palavras bonitas, quando tudo o que resta é um grito socorro, isso é oração suficiente. Deus não precisa da nossa eloquência, mas de nossa honestidade.

A descrição de Deus como aquele que "protege os simples" toca profundamente. Os simples - aqueles que não têm planos mirabolantes, que não sabem como sair sozinhos, que chegaram ao fim de si mesmos. Existe uma graça particular para quem não usa máscaras, para quem não finge a força que não possui. Quando o salmista diz "eu estava abatido, e Ele me salvou", há refrigério nessas palavras. Você não precisa ser forte, não precisa ter respostas. Você pode chegar quebrado, e mesmo assim - especialmente assim - há lugar para você.

"Volta ao teu descanso, ó minha alma" soa quase como uma canção de ninar para um coração ferido. Às vezes precisamos embalar nossa própria alma de volta à paz, recordando com ternura: "Lembra? Lembra quando Ele enxugou suas lágrimas? Lembra quando Ele segurou seus pés quando você ia tropeçar?" A memória se torna um ato de resistência contra o desespero. Não estamos negando a dor presente, mas estamos nos ancorado na verdade do que já experimentamos. E isso importa mais do que podemos imaginar nos dias difíceis.

O salmista confessa algo vulnerável e real: houve momentos em que disse "todos os homens são mentirosos". Ele foi decepcionado, magoado e  talvez traído. As pessoas falharam com ele quando ele mais precisava. E mesmo assim, ele não deixou que a falibilidade humana definisse sua visão de Deus. Isso me traz esperança, porque todos nós já fomos feridos por pessoas, alguns profundamente. E é tão fácil deixar que essas feridas construam muros ao redor do nosso coração, inclusive em relação a Deus. Mas o salmista nos mostra outro caminho: podemos reconhecer a dor causada pelas pessoas sem fechar nosso coração para o divino.

A questão "como retribuirei ao Senhor?" não nasce de obrigação, mas de um coração transbordante. É como quando alguém nos ama tão bem que não conseguimos deixar de querer retribuir de alguma forma. O salmista escolhe a gratidão pública, o testemunho compartilhado, os votos cumpridos. Não porque Deus precise, mas porque o coração curado precisa transbordar. Há algo terapêutico em dizer em voz alta: "Olhem o que Ele fez por mim. Eu estava perdido e fui encontrado. Eu estava machucado e fui tratado". Nosso testemunho não é apenas um presente para Deus, mas também um presente para outros que ainda estão nas cordas da morte, esperando ouvir que há saída.

E assim, o salmo termina onde começou - em amor, em gratidão, em louvor. Mas agora é diferente. É o "Aleluia" de quem atravessou a noite mais escura e viu o amanhecer. Não é ingenuidade, não é negar a dor. É a sabedoria de quem aprendeu que mesmo nos lugares mais sombrios, nós não estamos sozinhos. Que nossas lágrimas são vistas, nossos clamores são ouvidos, nossos passos trôpegos são amparados. E isso - essa presença fiel no meio da tempestade - isso vale cada "Aleluia" que nossos lábios conseguem pronunciar.


SP-1º/01/2026





terça-feira, dezembro 30, 2025

Reflexão sobre o Salmo 126 - A Volta para Sião

 

Em meio ao cinza, havia uma canção.

Wilma Rejane


Salmo 126:1-Quando o Senhor trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, estávamos como os que sonham. 

O Salmo 126 foi escrito por um exilado judeu que experimentou  70 anos de deportação de Jerusalém para Babilônia. Qual o nome desse prisioneiro? Não se sabe. O que se sabe é que sua gratidão e louvor por ter retornado a Sião são e salvo, está registrada como  um cântico de celebração ou um Cântico dos degraus.

E que degraus eram esses? Eram os degraus das subidas entre Jerusalém e a Babilônia (Esdras 7:9) e os degraus do templo de Jerusalém,onde,ano a ano peregrinos se reuniam para relembrar a libertação do cativeiro. Cada degrau um novo cântico,um novo Salmo. No total, são quinze os Salmos denominados "dos degraus ou das romagens" do 120 ao 134.

O Salmo 126 é tão belo quanto os demais e versa especialmente sobre restauração. O autor faz uso de três metáforas para expressar a alegria do retorno para casa: Um sonho agradável, as águas frescas das torrentes do Neguev e as festividades da colheita. Lendo esse Salmo, logo no primeiro verso, encontro inúmeras lições que servem de referencial para os tempos de crises, de cativeiros enfrentados por nós em determinados momentos da vida. 

O cativeiro Babilônico teve inicio em 598 a. C e nos livros dos profetas Ezequiel, Jeremias, Daniel, Ageu e Zacarias é possível constatar relatos da época, bem como dos propósitos de Deus para a nação de Israel que estava sob julgamento. No livro de Esdras há um rico relato do período de retorno da Babilônia, do mover de Deus sobre a nação de cativos que com arrependimento e choro retornaram para os seus lares.

Mas o que aconteceu com os cativos  durante os 70 anos de crise? Como encontraram forças e ânimo para permanecerem esperançosos e confiantes de que tudo iria passar e Deus estava com eles? Não deve ter sido fácil porque a Babilônia procurou de todas as formas oprimir e roubar toda esperança do retorno. E é da Babilônia que nos chegam revelações do que acontece no mundo espiritual em tempos de crise. Claro, nem toda crise é resultado do juízo de Deus sobre nós. Existe base Bíblica para afirmar que até mesmo homens justos e tementes a Deus podem passar por cativeiros terríveis,foi o que aconteceu com Jó.

Se é difícil encontrar os porquês das crises, se não há unanimidade quanto a isso, porém,há unanimidade em outro aspecto das crises: elas confrontam nossa fé e força e todos, sem exceção, precisam lidar com elas, de modo a não se deixar abater, naufragar. Por esse motivo, é que olhar para o cativeiro nos ensina. Eclesiastes 7:5 diz: "O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria." Então, vamos aprender com a casa do luto?

Algumas dificuldades vividas pelos cativos na terra da Babilônia:

I- Uma das primeiras investidas do exército da Babilônia (sob o domínio de Nabucodonosor II) contra os judeus foi: saquear as preciosidades do templo de Jerusalém. Tudo quanto havia em ouro, prata, metais preciosos foram levados embora (Jeremias 52). 

O templo de Jerusalém era uma representação da presença de Deus,  um elo entre Deus e o povo. Era lá que os sacerdotes se reuniam para transmitir a Palavra de Deus, manejar as ofertas sagradas.

O templo saqueado indicava o inicio de um período de tristeza. Consideremos que nós somos o Templo do Espírito Santo de Deus. Quando as crises vêm elas têm o objetivo de saquear esse Templo: roubar a alegria, o gozo,a comunhão com Deus, o que há de mais valioso em nossas vidas. O templo estava vazio, mas sua estrutura estava lá de modo que ainda era possível sonhar com um retorno, com as festas e as reuniões solenes. Não por muito tempo, porque os opressores também investiram para destruir essa esperança.

II- Sacerdotes e ferreiros estavam na primeira turma de cativos (Jeremias 24:1)

Sem sacerdotes e sem ferreiros o povo enfraquecia. Não havia direção de Deus, não haviam armas para contra atacar. Até mesmo no exílio essas funções foram proibidas de serem exercidas, em Lamentações de Jeremias se lê:

Lamentações 2: 9 - "As portas de Jerusalém já de nada servem. Todas as fechaduras e cadeados estão violados e partidos; foi ele mesmo quem os arrombou. Os seus reis e os nobres estão escravizados em terras desconhecidas e afastadas, sem um templo, sem leis divinas para os governarem, sem visão profética para os guiar."

Efésios 6:10-18 afirma que nas crises trava-se uma batalha espiritual. Os recursos espirituais estavam sendo roubados de Israel. Armas materiais não mais haveriam e as espirituais precisavam ser buscadas, de modo individual. os profetas da prosperidade haviam sido envergonhados, suas mensagens de paz e bênçãos não se cumpriram e aos cativos restava ouvir os profetas dos "ais" (Lamentações 2:14). e ouvindo os "ais" cada um deveria buscar a Deus em arrependimento. 

O que aprendemos aqui? A salvação é individual. Romanos 14:12 diz: "De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus." Desconfie de qualquer evangelho que não pregue arrependimento e afastamento do pecado. Desconfie dos caminhos e portas largas que não exigem renúncia e comprometimento com Deus. Desconfie da ritualidade eclesiástica, porque Evangelho é libertação é relacionamento com Deus através de Jesus Cristo. Evangelho é restauração do Templo, é novo nascimento com retorno ao Criador para fazer a Sua vontade. 

I Pedro 1:23 "Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre.

Cada cativo precisava viver sua própria experiência, crescer pessoalmente na compreensão sobre Deus. Crises são aprendizados e não adianta querermos apenas culpar os outros pelo que não deu certo. É preciso fazer a nossa parte, refletir: onde preciso melhorar? 

III- A cidade destruída e a batalha para reergue-la.

Como voltar para os lares se a cidade estava em ruínas? Deus providencia o recomeço e instrui a Esdras para liderar a obra de restauração. Mas a Babilônia sabia que com os muro reerguidos e o templo em funcionamento, o retorno se tornaria possível, a esperança renasceria para os cativos que se tornariam mais fortes.


Esdras 4:4-5 "Todavia o povo da terra debilitava as mãos do povo de Judá, e inquietava-os no edificar. E alugaram contra eles conselheiros, para frustrarem o seu plano, todos os dias de Ciro, rei da Pérsia, até ao reinado de Dario, rei da Pérsia."

Não é assim também conosco? A Babilônia, não quer nos vê de pé e felizes, mas quando Deus ordena, Seus planos não se frustram. Havia chegado a hora do retorno, as ruínas do passado precisavam dar lugar a uma cidade forte. Salmo 113:7 diz que "Deus Levanta o pobre do pó e do monturo levanta o necessitado."

Se estamos dispostos a mudar a direção de nossas vidas, os pecados serão  perdoados. De vidas despedaçadas: por vícios, medos,abandonos, rebeldia...O que for, Deus ajunta os cacos e ergue fortalezas. Mas será preciso esforço, entrega. Não se pode esperar que outros façam por nós o que só nós podemos fazer. Israel não tinha mais que confiar em templos, reuniões, sacerdotes da prosperidade, armamentos. Israel tinha que decidir andar com Deus, as bençãos seriam consequências.

Para reconstruir Jerusalém, nem mesmo as pedras queimadas pelo fogo do incêndio provocado pelo exército inimigo foram descartadas. Elas serviram de alicerce para novas construções.  É isso mesmo, Deus é divinamente paciente para nos tratar com amor e perdão. Ele não quer nossa destruição, antes,porém, quer nosso crescimento e felicidade. E se para isso tiver que nos corrigir, assim seja. Sábio será o que aceitar a correção.

Hebreus 12:11 "E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela."


 A restauração:
  • Quando o Senhor trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, estávamos como os que sonham.
  • Então a nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de cântico; então se dizia entre os gentios: Grandes coisas fez o Senhor a estes.
  • Grandes coisas fez o Senhor por nós, pelas quais estamos alegres.
  • Traze-nos outra vez, ó Senhor, do cativeiro, como as correntes das águas no sul. 
  • Os que semeiam em lágrimas segarão com alegria.
  • Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos. 
Salmos 126:1-6

No final, a recompensa  chega como as correntes do Sul, que lugar é esse? Se refere as torrentes no deserto de Neguebe, um lugar inóspito ao Sul de Jerusalém. Ali existe um leito de rio vazio e seco em alguns períodos do ano, mas de repente, e sem haver chuva ou explicação, o lugar é inundado por torrentes de águas, e o lugar então, faz jus a indicação: "correntes do Sul" ou "torrentes do Sul" que transbordam como em um fenômeno.

No final o que foi plantado com choro, é colhido com alegria. Por que foi plantado com choro? Porque o terreno era trabalhoso, a caminhada era penosa, as sementes foram conseguidas com tanto esforço que mesmo andando e chorando o semeador não as soltou, não as desprezou. Pelo contrário, ele as sustentou com todo o zelo e acreditou que floresceriam. Que grande lição de fé nos dá esse Salmo!

Nesse momento, temos em diversas partes do mundo, servos fiéis  passando por cativeiros: missionários em prisão, mulheres em decepção por causa de um relacionamento, homens desempregados, quem sabe doenças, morte. Todos esses cativeiros são reais, mas não podemos soltar as sementes das promessas de Deus, não podemos perder jamais a alegria de ter o Reino de Deus em nós. As torrentes do Sul, podem jorrar como um despertar espiritual nos proporcionando crescimento que não alcançaríamos, de outra forma, que não através do choro de arrependimento, decepção, tristeza e outros regressos.


Que o Deus da restauração o abençoe.

Fonte de pesquisa: Bíblia de Estudo Plenitude, Sociedade Bíblica do Brasil, SP. Edição 1995.

sábado, dezembro 27, 2025

John Flynn - O Missionário da Austrália



Pesquisa de João Cruzué

John Flynn nasceu em 25 de novembro de 1880 em Moliagul, no estado de Victoria, Austrália, filho de Robert Flynn e Margaret Flynn (nascida McLachlan), imigrantes de origem escocesa que buscavam melhores condições de vida em um país ainda em desenvolvimento. O pai, Robert, era homem prático, trabalhador rural, acostumado à rotina dura das propriedades do interior australiano, enquanto a mãe, Margaret, cuidava da casa e dos filhos com disciplina tranquila, transmitindo valores de perseverança e solidariedade. Esse ambiente familiar simples e dedicado moldou desde cedo a visão de mundo de Flynn, pautada em compromisso com o próximo.

Quando John tinha apenas sete anos, sua mãe Margaret adoeceu gravemente e faleceu após uma longa enfermidade. A morte prematura de sua mãe deixou uma marca profunda na sua formação emocional e ética, pois expôs Flynn ao sofrimento de quem enfrenta a vida sem apoio e assistência adequada. A ausência da mãe fez crescer nele o senso de responsabilidade para com os outros, especialmente os que estavam em situações de fragilidade. Robert, o pai, precisou então equilibrar o trabalho no campo com a educação dos filhos, transmitindo a John a importância do esforço contínuo.

Durante a juventude, Flynn frequentou escolas locais, demonstrando grande curiosidade intelectual e uma capacidade acima da média para leitura e raciocínio. Embora a família não fosse abastada, os pais incentivaram seus estudos, entendendo que a educação poderia abrir portas para futuro diferente na Austrália em rápida transformação. Essa confiança dos pais contribuiu para que Flynn desenvolvesse também uma profunda consciência de que a formação de um indivíduo tinha impacto direto na capacidade de servir à comunidade.

A decisão de Flynn de seguir os estudos teológicos e tornar-se pastor presbiteriano não foi abrupta nem isolada de sua história familiar. Ele próprio reconheceu mais tarde que a forma como seus pais viveram — com trabalho duro, fé e generosidade — influenciou sua escolha vocacional. A teologia lhe oferecia não apenas um caminho espiritual, mas uma plataforma para agir diretamente em prol das pessoas que enfrentavam injustiças e desigualdades no acesso a serviços e cuidados essenciais.

Ordens de ministro em 1911, Flynn começou a viajar pelo “Outback” australiano, região caracterizada por longas distâncias, clima árido e populações dispersas. A combinação da própria experiência de vida no interior com a formação espiritual e social que ele recebera em casa e na igreja o motivou a ouvir atentamente os relatos de famílias que enfrentavam doenças e acidentes sem qualquer suporte médico por dias ou semanas a fio.

O sofrimento que testemunhou nas estradas e vilarejos isolados fez Flynn refletir sobre a própria infância e sobre as histórias contadas por sua mãe — de comunidades pequenas que se uniam em tempos de necessidade. Ele percebeu que a ausência de cuidados de saúde não era apenas problema individual, mas entrave para o desenvolvimento e dignidade das regiões remotas e de seus habitantes, muitos dos quais eram filhos de famílias tão humildes quanto a dele.

Com o aprofundar de suas viagens e conversas, Flynn passou a documentar sistematicamente as dificuldades enfrentadas. Ele compôs relatórios e artigos que chamavam atenção não apenas para aspectos médicos, mas para a condição social geral dessas populações. O trabalho significava para ele tributo à memória da mãe e à resiliência do pai, cuja dedicação ao lar e ao trabalho tinham sido pilares em sua formação.

Ao identificar as limitações das rotas terrestres e da comunicação tradicional, Flynn passou a defender o uso de tecnologias emergentes como aviões e rádios para reduzir o tempo de resposta médico. Essa visão inovadora vinha da convicção de que nenhuma pessoa, independentemente da localização, deveria ser condenada pela distância ou pela falta de infraestrutura — um princípio que refletia diretamente a ética de cuidado e igualdade aprendida em sua casa familiar.

Em 1928, Flynn tornou realidade a fundação do Aerial Medical Service, com apoio financeiro de doadores, pilotos voluntários e médicos dispostos a enfrentar desafios consideráveis. A partir desse serviço inicial, que contava com poucas aeronaves e sistemas de rádio rudimentares, construiu-se o que hoje é conhecido como o Royal Flying Doctor Service of Australia (RFDS). Cada missão bem-sucedida consolidava a ideia de que tecnologia e solidariedade social poderiam caminhar juntas.

O RFDS cresceu em complexidade, com planejamento de rotas médicas, infraestrutura própria e equipes especializadas. A organização tornou-se serviço contínuo, salvando milhares de vidas e reduzindo drasticamente a mortalidade por causas tratáveis em áreas isoladas. Flynn passou a ser saudado não apenas como líder religioso, mas como dos principais agentes de transformação social do país, integrando sua formação espiritual e seus valores familiares à ação prática.

Flynn continuou ativo até os últimos anos de sua vida, publicando cartas, relatórios e incentivando políticas públicas que reconhecessem a importância da assistência médica digna em todo o território nacional. Sua obra consolidou-se não apenas no reconhecimento institucional, como a presença de seu retrato na nota de 20 dólares australianos, mas na vida de centenas de milhares de pessoas que passaram a ter acesso a cuidados que antes seriam impossíveis.

Ao morrer em 5 de maio de 1951, John Flynn deixou um legado que transcende a biografia de um indivíduo: ele demonstrou que a junção de fé, inteligência, coragem e ação pode superar barreiras aparentemente intransponíveis. Sua história, enraizada nas experiências familiares, no sofrimento pessoal diante da perda e no compromisso ético com a igualdade, permanece como exemplo duradouro de como valores humanos e inovação podem transformar sociedades inteiras.


 BIBLIOGRAFIA:

BRADFORD, Gillian. John Flynn: The Man and His Legacy. Melbourne: National Library of Australia, 2015.

PAGE, Michael. The Flying Doctor Story. Sydney: Angus & Robertson Publishing, 1990.

WILKINSON, R. G. John Flynn: Apostle to the Inland. London: Hodder & Stoughton, 1932.

ROYAL FLYING DOCTOR SERVICE OF AUSTRALIA. History of the RFDS. RFDS Publications, 2008.

FLYNN, John. The Bushman’s Companion. Australia Inland Mission Press, 1910–1930.






Estudo sobre a Lepra - Hanseníase


Os 10 Leprosos

Pesquisa de João Cruzué

A hanseníase (antigamente chamada de lepra) é uma doença infecciosa crônica que ainda existe hoje, mas tem cura e, quando tratada cedo, quase sempre evita sequelas permanentes. Organização Mundial da Saúde+1

1. O que é hanseníase?

A hanseníase é uma doença causada por bactérias do gênero Mycobacterium leprae (e, em alguns casos, M. lepromatosis). São bacilos de crescimento muito lento, que atacam principalmente:

Ela é considerada uma doença infecciosa crônica e negligenciada: ainda causa sofrimento e incapacidade em países de baixa e média renda, apesar de existirem diagnóstico e tratamento eficazes há décadas. Wiley Online Library+1

O termo “lepra” é cada vez menos usado na medicina por causa do estigma histórico associado à doença — isolamento compulsório, discriminação religiosa e social. O termo “hanseníase” (do médico norueguês Gerhard Hansen, que identificou o bacilo em 1873) é preferido para reduzir preconceito e reforçar a ideia de que se trata de uma doença tratável e curável. SciELO+1


2. Agente etiológico e fisiopatologia

2.1. A bactéria

  • Mycobacterium leprae é uma micobactéria “parente” do bacilo da tuberculose, ácido-álcool resistente, que cresce muito lentamente (tempo de duplicação de cerca de 12–14 dias).

  • Ela tem enorme preferência por células de Schwann (que envolvem os nervos periféricos) e por áreas do corpo com temperatura mais baixa, como orelhas, extremidades das mãos e dos pés. Anais de Dermatologia+1

Esse tropismo explica por que a hanseníase é, principalmente, uma neuropatia infecciosa com manifestações na pele.

2.2. Resposta imunológica e espectro da doença

A forma como o organismo reage à bactéria determina um espectro clínico:

  • Pessoas com resposta imune celular forte (Th1) tendem a limitar a multiplicação do bacilo → formas tuberculoides, com poucas lesões, bacilos escassos e doença mais localizada.

  • Pessoas com resposta humoral predominante (Th2) não conseguem controlar bem a infecção → formas lepromatosas, com muitos bacilos, lesões extensas e maior risco de transmissão e complicações. Anais de Dermatologia+1

Entre esses extremos, existem formas intermediárias (borderline). Essa visão “espectral” é a base da clássica classificação de Ridley–Jopling (TT, BT, BB, BL, LL). International Textbook of Leprosy+1


3. Incubação e formas de transmissão

3.1. Período de incubação

A hanseníase tem incubação longa: em média cerca de 5 anos, podendo chegar a mais de 10–20 anos entre a infecção e o aparecimento dos primeiros sintomas. Organização Mundial da Saúde+1

3.2. Como se transmite?

A evidência científica atual indica que:

  • A principal via de transmissão são gotículas respiratórias (aerossóis) da boca e do nariz de pessoas com hanseníase multibacilar não tratada, durante contato próximo e prolongado (familiares, convivência diária etc.). PMC+3Organização Mundial da Saúde+3Don't Forget the Bubbles+3

  • A doença não é altamente contagiosa: mais de 95% das pessoas têm imunidade natural e nunca desenvolvem hanseníase, mesmo que entrem em contato com a bactéria. Don't Forget the Bubbles+1

  • Há evidência de transmissão zoonótica em situações específicas (por exemplo, contato intenso com tatus em certas regiões dos EUA) e possibilidade de reservatórios ambientais, mas isso ainda é menos relevante que a transmissão humano-humano. Leprosy Review+2ResearchGate+2

Importante: pessoas em tratamento com poliquimioterapia (PQT/MDT) deixam de transmitir a doença após poucas doses, embora precisem terminar todo o esquema para ficar curadas. Organização Pan-Americana da Saúde+2Saúde NT+2


4. Epidemiologia global e no Brasil

4.1. Situação mundial

Dados da OMS mostram que, em 2023, foram notificados cerca de 182.815 novos casos de hanseníase no mundo, com registros em todas as seis regiões da OMS. Organização Mundial da Saúde+1

Apesar da redução de incidência nas últimas décadas, a doença ainda é considerada problema de saúde pública em vários países, principalmente no sul e sudeste da Ásia, na África e nas Américas. Organização Mundial da Saúde+1

4.2. Situação nas Américas e no Brasil

  • Nas Américas, em 2023 foram registrados cerca de 24–25 mil novos casos, o que corresponde a aproximadamente 13–14% do total mundial.

  • Mais de 90% desses casos ocorreram no Brasil, que é o país com maior número de casos na região e o segundo no mundo. OPAS+2OPAS+2

Estudos de carga global da doença mostram que, de 1990 a 2019, houve redução na incidência e na prevalência no Brasil, mas a hanseníase continua concentrada em regiões com piores indicadores socioeconômicos, revelando forte relação com pobreza, saneamento deficiente e acesso limitado aos serviços de saúde. ScienceDirect+1


5. Manifestações clínicas

A hanseníase é conhecida como doença neurocutânea, porque os sintomas mais importantes envolvem pele e nervos periféricos. A apresentação pode variar bastante, mas alguns elementos são clássicos:

5.1. Sinais na pele

  • Manchas (máculas ou placas) na pele que podem ser mais claras que o tom normal, avermelhadas ou acastanhadas

  • Essas lesões podem ter:

    • alteração ou perda da sensibilidade (tato, dor, calor/frio)

    • diminuição de pelos e de suor na região

  • Em formas mais avançadas, surgem lesões maiores e múltiplas, distribuídas pelo corpo. Organização Pan-Americana da Saúde+2NCBI+2

5.2. Comprometimento neural

A infecção dos nervos periféricos pode levar a:

  • dormência ou formigamento em mãos e pés

  • fraqueza muscular (dificuldade de segurar objetos, “pé caído”)

  • espessamento palpável de nervos periféricos (como ulnar, tibial posterior, fibular comum) NCBI+1

Se não tratada, a neuropatia pode evoluir para incapacidades físicas (dificuldade para andar, deformidades, úlceras crônicas em pés e mãos). Os serviços de saúde classificam a gravidade em graus de incapacidade (0, I, II) para monitorar o impacto da doença. Revista Mundo da Saúde+1

5.3. Reações hansênicas

Mesmo durante o tratamento, alguns pacientes apresentam episódios chamados reações hansênicas, que são “tempestades imunológicas” agudas:

  • Reação tipo 1 (reversa) – geralmente em formas borderline, com inflamação de lesões pré-existentes e nervos.

  • Reação tipo 2 (eritema nodoso hansênico) – mais comum em formas lepromatosas, com nódulos dolorosos, febre e comprometimento sistêmico. www.elsevier.com+1

Esses episódios exigem manejo médico cuidadoso (frequentemente com corticoides ou outros imunomoduladores) para evitar danos permanentes aos nervos.


6. Classificações: Ridley–Jopling e classificação operacional da OMS

6.1. Ridley–Jopling (espectral)

Baseada em critérios clínicos, histopatológicos, bacteriológicos e imunológicos, divide a doença em: International Textbook of Leprosy+1

  • TT – Tuberculoide polar

  • BT – Borderline tuberculoide

  • BB – Borderline borderline

  • BL – Borderline lepromatosa

  • LL – Lepromatosa polar

Essa classificação é muito útil em pesquisa e em serviços especializados, porque se relaciona diretamente com o tipo de resposta imune e com o número de bacilos.

6.2. Classificação operacional da OMS (PB vs MB)

Para fins de tratamento em serviços de rotina, a OMS adotou um sistema mais simples: IJID Online+3Organização Mundial da Saúde+3SciELO+3

  • Paucibacilar (PB):

    • até 5 lesões de pele e, em geral, baciloscopia negativa;

    • menor carga bacilar.

  • Multibacilar (MB):

    • 6 ou mais lesões de pele e/ou múltiplos nervos afetados, com maior probabilidade de baciloscopia positiva;

    • maior carga bacilar e maior potencial de transmissão.

Essa classificação é simples e facilita definir o esquema de tratamento em programas de controle.


7. Diagnóstico

O diagnóstico da hanseníase é, acima de tudo, clínico, reforçado por exames complementares.

7.1. Critérios clínicos principais

Manuais de referência consideram suspeita forte de hanseníase quando há: International Textbook of Leprosy+2International Textbook of Leprosy+2

  1. Lesão(ões) de pele com:

    • alteração ou perda de sensibilidade, e/ou

    • alteração de pelos e suor;

  2. Espessamento de nervos periféricos, com alteração sensitiva ou motora;

  3. Comprometimento de nervos com queixas neurológicas compatíveis, mesmo sem lesões de pele claras.

7.2. Exames complementares

  • Baciloscopia: raspado dérmico de lesões ou lóbulos de orelha, corado por Ziehl–Neelsen, para pesquisar bacilos álcool-ácido resistentes. Georgia Department of Public Health+1

  • Biópsia de pele ou nervo: mostra padrão histológico compatível com o espectro de Ridley–Jopling e presença de bacilos. International Textbook of Leprosy+1

  • Testes moleculares (PCR): usados em alguns centros de referência para detectar DNA de M. leprae, especialmente em casos duvidosos. PMC+1


8. Tratamento: poliquimioterapia (PQT/MDT)

8.1. Esquemas clássicos da OMS

Desde a década de 1980, a OMS recomenda a poliquimioterapia (MDT), que combina três antibióticos: rifampicina, dapsona e clofazimina. HPSC+4Organização Mundial da Saúde+4Organização Pan-Americana da Saúde+4

A duração varia conforme a classificação operacional:

  • Paucibacilar (PB):

    • tratamento por 6 meses, com doses supervisionadas mensais de rifampicina e dapsona + uso diário de dapsona;

  • Multibacilar (MB):

    • tratamento por 12 meses (em alguns protocolos até 18–24 meses), com doses mensais de rifampicina + clofazimina e uso diário de dapsona + clofazimina. Anais de Dermatologia+2HPSC+2

A multidroga é altamente eficaz, com baixas taxas de recidiva quando usada corretamente. Estudos de seguimento de longo prazo em centros de referência brasileiros mostram taxas de recaída muito baixas depois de 12 doses em hanseníase multibacilar. Nature+1

8.2. Novas abordagens terapêuticas

Pesquisas recentes em revistas brasileiras de doenças infecciosas discutem novos esquemas, como o regime RIMOXCLAMIN, focado em recuperação de sensibilidade e possivelmente regimes mais curtos ou alternativos, ainda em avaliação. Revista de Doenças Infecciosas+1

Por enquanto, porém, a base do tratamento continua sendo a PQT/MDT padronizada pela OMS.


9. Prevenção, profilaxia e BCG

9.1. Diagnóstico precoce e tratamento

A estratégia central de controle da hanseníase é diagnosticar cedo e tratar corretamente todos os casos, o que: Organização Mundial da Saúde+2OPAS+2

  • interrompe a cadeia de transmissão;

  • previne incapacidades físicas;

  • reduz o estigma.

9.2. Contatos e dose única de rifampicina (SDR-PEP)

Nos últimos anos, ganhou força a profilaxia pós-exposição em contatos próximos de pacientes, com uma única dose de rifampicina (SDR-PEP):

  • Ensaios clínicos e revisões mostram redução de cerca de 50–60% do risco de adoecer nos primeiros anos entre contatos que recebem SDR. PLOS+3Leprosy Review+3JBI+3

  • Por isso, as Diretrizes da OMS (2018 em diante) recomendam SDR-PEP para contatos elegíveis, como parte da estratégia global 2021–2030 para eliminação da hanseníase. Iris+2Organização Mundial da Saúde+2

A aplicação é feita de forma organizada pelos serviços de saúde, sempre após descartar doença ativa e tuberculose nos contatos.

9.3. Vacina BCG

Embora a vacina BCG tenha sido criada para prevenir tuberculose, diversos estudos mostram que ela também oferece proteção parcial contra hanseníase, com eficácia variando aproximadamente entre 18% e 90% conforme o estudo e o contexto. Revistas UniCesumar+4The Lancet+4Revista Ind. de Dermatologia+4

Por isso:

  • em países endêmicos, recomenda-se manter a BCG no calendário vacinal;

  • em muitos programas, contatos intradomiciliares de pacientes de hanseníase recebem BCG adicional, dependendo das normas nacionais.


10. Impacto psicossocial e estigma

Além dos aspectos biológicos, a hanseníase tem enorme impacto social e psicológico:

As estratégias atuais de controle da doença incorporam:

  • educação em saúde para a população

  • combate a preconceitos

  • proteção dos direitos humanos e inclusão social de pessoas que tiveram hanseníase


11. Prognóstico

Com diagnóstico precoce e adesão ao tratamento:

  • a maioria dos pacientes é curada sem sequelas;

  • a mortalidade diretamente ligada à hanseníase é baixa;

  • os principais problemas são as incapacidades físicas, que podem ser evitadas com tratamento e reabilitação apropriados (fisioterapia, órteses, cuidado com pés e mãos). Leprosy Review+2Revista de Saúde e Ciências Biomédicas+2


12. Resumo:

  • Hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada por M. leprae, que afeta pele e nervos periféricos.

  • A transmissão ocorre principalmente por gotículas respiratórias, em contato próximo e prolongado com pessoas multibacilares não tratadas.

  • Ela não é altamente contagiosa e tem cura com poliquimioterapia (rifampicina, dapsona, clofazimina), oferecida gratuitamente em programas nacionais e recomendada pela OMS.

  • A classificação em paucibacilar e multibacilar orienta o tempo de tratamento (6 ou 12 meses, em geral).

  • Estratégias modernas de controle incluem profilaxia com dose única de rifampicina para contatos e uso de BCG, além de forte atuação contra o estigma.