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domingo, dezembro 21, 2025

Teologia Holística do Batismo e do Derramamento do Espírito Santo

Pomba 

João Cruzué

O Batismo com o Espírito Santo e o Derramamento do Espírito Santo figuram entre os temas mais decisivos e, ao mesmo tempo, mais debatidos da teologia cristã. Desde o Pentecostes narrado em Atos 2, a Igreja compreendeu que a vida cristã não se sustenta apenas em doutrina correta, mas na ação viva e contínua do Espírito de Deus. Contudo, ao longo da história, surgiram leituras distintas: algumas enfatizam o batismo como experiência subsequente à conversão, outras o identificam com a regeneração, enquanto o derramamento é visto ora como renovação espiritual coletiva, ora como momentos extraordinários de avivamento e missão. As diferenças não decorrem apenas de divergências bíblicas, mas também de contextos históricos, preocupações pastorais e métodos hermenêuticos. A seguir, apresenta-se uma análise aprofundada do tema em nove teólogos protestantes representativos e três católicos, considerando em cada parágrafo sua compreensão integrada do batismo e do derramamento do Espírito, culminando em uma síntese conclusiva.


PENTECOSTAIS

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Stanley M. Horton

Stanley Horton entende o batismo com o Espírito Santo como uma experiência distinta e posterior à conversão, concedida a crentes já regenerados com o propósito específico de capacitá-los espiritualmente para o testemunho, a missão e o exercício dos dons. Para Horton, essa experiência encontra sua evidência inicial no falar em línguas, conforme o padrão recorrente observado no livro de Atos, embora ele rejeite qualquer compreensão mecanicista ou meramente emocional dessa manifestação. Já o derramamento do Espírito Santo é visto como a intensificação dessa obra no âmbito comunitário, quando Deus visita a Igreja com renovação de poder, despertamento espiritual e expansão missionária. Horton enfatiza que o derramamento não cria uma nova doutrina, mas reaviva a vida espiritual, reacendendo o compromisso com santidade, serviço e proclamação do evangelho. Assim, batismo e derramamento se complementam: o primeiro capacita o indivíduo, o segundo renova o corpo da Igreja.


Gordon D. Fee

Gordon Fee aborda o tema com maior cautela teológica e rigor exegético. Para ele, o batismo com o Espírito Santo ocorre no momento da conversão, quando o crente é unido a Cristo e incorporado ao corpo da Igreja, conforme a teologia paulina. Fee rejeita a noção de uma segunda obra normativa e universal, mas não descarta a realidade de experiências profundas e transformadoras com o Espírito. Nesse sentido, o derramamento do Espírito Santo refere-se às múltiplas experiências de renovação, enchimento e capacitação que acompanham a vida cristã e a missão da Igreja. Fee reconhece que tais derramamentos podem ser intensos, emocionais e até extraordinários, mas insiste que devem ser avaliados à luz da Escritura e de seus frutos espirituais. Para ele, o Espírito não é um marcador de status espiritual, mas a presença constante que molda a comunidade cristã à imagem de Cristo.


William W. Menzies

William Menzies é um dos principais formuladores da hermenêutica pentecostal clássica e defende com clareza que o batismo com o Espírito Santo é uma experiência subsequente à conversão, funcionalmente orientada para o empoderamento missionário. Para Menzies, o livro de Atos não é apenas um registro histórico, mas um modelo normativo da ação do Espírito na Igreja. O derramamento do Espírito Santo, por sua vez, é entendido como a atualização contínua do Pentecostes, quando Deus visita comunidades inteiras com poder renovado, despertando dons, avivando a fé e impulsionando a evangelização. Menzies vê esses derramamentos como momentos críticos na história da Igreja, responsáveis por grandes movimentos missionários e expansão do cristianismo. Em sua teologia, batismo e derramamento são inseparáveis da vocação da Igreja para testemunhar “até os confins da terra”.


REFORNADOS

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João Calvino

João Calvino compreende o batismo com o Espírito Santo como realidade inseparável do novo nascimento. Para ele, o Espírito é recebido plenamente na conversão, sendo o agente da fé, da justificação e da santificação. Calvino rejeita qualquer distinção que produza uma elite espiritual ou uma segunda experiência obrigatória, insistindo que todos os crentes participam igualmente do Espírito. No entanto, ele reconhece que Deus concede medidas variadas de graça ao longo da caminhada cristã. O derramamento do Espírito Santo, em sua teologia, manifesta-se nos momentos em que Deus renova a Igreja por meio da iluminação das Escrituras, da pregação fiel e de reformas espirituais profundas. Esses derramamentos não são espetaculares por natureza, mas produzem frutos duradouros de arrependimento, obediência e renovação da vida comunitária, sempre sob a soberania absoluta de Deus.


Martinho Lutero

Martinho Lutero associa a obra do Espírito Santo de forma inseparável à Palavra de Deus. Para ele, o batismo com o Espírito não é uma experiência distinta da fé, mas a própria ação do Espírito que cria fé no coração humano por meio da pregação do evangelho. O Espírito age onde Cristo é anunciado corretamente, trazendo arrependimento, consolação e confiança na graça. O derramamento do Espírito Santo, em Lutero, ocorre quando Deus vivifica novamente a Igreja por meio da redescoberta do evangelho, libertando-a do legalismo e da superstição religiosa. Embora Lutero não enfatize experiências carismáticas, ele reconhece que o Espírito pode agir poderosamente na história, renovando comunidades inteiras e conduzindo a Igreja de volta ao centro do evangelho da justificação pela fé.


Jonathan Edwards

Jonathan Edwards oferece uma abordagem profundamente espiritual e pastoral. Embora não utilize a linguagem pentecostal de batismo com o Espírito Santo, ele reconhece a realidade de operações extraordinárias do Espírito que transformam indivíduos e comunidades. Para Edwards, o derramamento do Espírito Santo é especialmente visível nos períodos de avivamento, quando há convicção profunda de pecado, amor intenso por Cristo e uma vida marcada por santidade prática. Ele alerta, contudo, que experiências espirituais devem ser discernidas com cuidado, pois nem toda emoção intensa procede do Espírito. O verdadeiro derramamento é identificado por seus frutos duradouros: humildade, obediência, amor ao próximo e perseverança na fé. Assim, Edwards fornece uma ponte entre experiência espiritual e discernimento teológico responsável.

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PROTESTANTES ATUAIS

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N. T. Wright

N. T. Wright compreende o batismo com o Espírito Santo dentro da grande narrativa bíblica da nova criação. Para ele, receber o Espírito significa ser incorporado ao povo da nova aliança inaugurada pela ressurreição de Cristo. O Espírito é o sinal de que o futuro escatológico já começou a invadir o presente. O derramamento do Espírito Santo, nessa perspectiva, capacita a Igreja a viver como sinal visível do Reino de Deus no mundo, promovendo justiça, reconciliação e fidelidade a Cristo. Wright rejeita tanto o racionalismo seco quanto o experiencialismo descontrolado, insistindo que o Espírito atua para formar comunidades que antecipem, aqui e agora, a realidade do Reino que será plenamente consumado.


Alister McGrath

Alister McGrath aborda o tema com equilíbrio histórico e pastoral. Ele entende o batismo com o Espírito Santo como parte integrante da conversão cristã, quando o crente é unido a Cristo e introduzido na vida da Igreja. Contudo, McGrath reconhece que a tradição cristã sempre falou de derrames do Espírito Santo como tempos de renovação espiritual, fortalecimento da fé e revitalização missionária. Ele alerta para o perigo de absolutizar experiências subjetivas, mas também critica uma teologia que marginaliza a ação viva do Espírito. Para McGrath, o Espírito Santo atua tanto na experiência pessoal quanto na formação intelectual e moral da fé cristã, mantendo a Igreja viva em meio aos desafios culturais e espirituais de cada época.


John Piper

John Piper afirma com clareza que todo verdadeiro cristão possui o Espírito Santo desde a conversão, rejeitando a ideia de um batismo subsequente obrigatório. No entanto, ele encoraja fortemente a busca contínua por enchimentos e derramamentos renovados do Espírito, que produzem paixão por Deus, poder espiritual e ousadia missionária. Piper valoriza experiências intensas com o Espírito, mas insiste que seu propósito central é a glória de Deus, não a exaltação da experiência em si. O derramamento do Espírito, para ele, manifesta-se quando Deus desperta alegria profunda em Cristo, quebranta o orgulho humano e impulsiona a Igreja a viver para a glória divina em todas as áreas da vida.


CATÓLICOS


Santo Agostinho

Santo Agostinho compreende o Batismo com o Espírito Santo como inseparável da incorporação do cristão em Cristo e na Igreja, especialmente por meio dos sacramentos do batismo e da fé. Para ele, o Espírito Santo é o dom do amor de Deus, derramado no coração do crente para produzir caridade, unidade e perseverança. Agostinho não concebe o batismo no Espírito como uma experiência subsequente autônoma, mas reconhece que há derramamentos do Espírito ao longo da história e da vida cristã, quando Deus renova a Igreja em tempos de crise, perseguição ou corrupção moral. Esses derramamentos manifestam-se menos por sinais extraordinários e mais por frutos duradouros: arrependimento, humildade, restauração da verdade e fortalecimento da comunhão. Para Agostinho, o Espírito é o vínculo vivo entre Cristo e a Igreja ao longo da história.


São Tomás de Aquino

São Tomás de Aquino desenvolve uma compreensão profundamente sistemática do Espírito Santo. O batismo com o Espírito, para Tomás, ocorre na infusão da graça santificante, quando o crente recebe o Espírito como princípio interior de vida nova, fé, esperança e caridade. Contudo, ele distingue claramente entre a habitação permanente do Espírito e os derramamentos especiais de graça, que podem intensificar dons espirituais (gratiae gratis datae) para edificação da Igreja. Esses derramamentos não são universais nem permanentes, mas concedidos segundo a vontade soberana de Deus para fins específicos, como ensino, profecia ou liderança espiritual. Tomás oferece, assim, uma chave teológica decisiva: o Espírito age tanto de modo ordinário quanto extraordinário, sempre ordenado ao bem comum e jamais desconectado da verdade, da razão e da ordem moral.


Karl Rahner

Karl Rahner interpreta o Batismo com o Espírito Santo a partir de sua teologia da graça como autocomunicação de Deus. Para ele, todo cristão verdadeiramente aberto à fé vive, ainda que de modo implícito, uma experiência do Espírito. O Espírito Santo é aquele que possibilita a resposta humana à revelação divina. O derramamento do Espírito, em Rahner, ocorre quando essa presença se torna consciente, transformadora e historicamente eficaz, tanto na vida pessoal quanto na missão da Igreja. Ele vê esses derramamentos em momentos de renovação eclesial, abertura missionária e sensibilidade ao sofrimento humano. Rahner desloca o foco da espetacularidade para a profundidade existencial, afirmando que a ação do Espírito se manifesta sobretudo na fidelidade cotidiana, no compromisso ético e na abertura radical ao mistério de Deus.


Considerações gerais:

A comparação entre os doze teólogos mostra que o debate sobre o Batismo com o Espírito Santo e o Derramamento do Espírito Santo não gira em torno da existência da ação do Espírito, mas de como, quando e para quê essa ação se manifesta. 

Os pentecostais veem o batismo como experiência subsequente à conversão, voltada ao poder para a missão, e o derramamento como renovação coletiva que reaviva a Igreja. Os reformadores clássicos afirmam que o Espírito é recebido plenamente na conversão, mas reconhecem períodos históricos de renovação espiritual. Jonathan Edwards aproxima essas visões ao validar avivamentos, desde que confirmados por frutos espirituais duradouros.

Entre os protestantes contemporâneos, N. T. Wright entende o Espírito como dom da nova criação que forma comunidades do Reino, Alister McGrath destaca a continuidade da ação do Espírito na história da Igreja, e John Piper enfatiza a necessidade de enchimentos constantes que conduzem à alegria em Deus e à santidade prática. 

Já a tradição católica, em Agostinho, Tomás de Aquino e Karl Rahner, reforça a dimensão histórica, moral e existencial do Espírito, distinguindo sua presença permanente dos momentos especiais de renovação.

Em síntese, apesar das diferenças de linguagem e ênfase, todas as correntes convergem em um ponto central: o Espírito Santo é essencial para a vida, a missão e a fidelidade da Igreja. Seja no batismo inicial, seja nos derramamentos ao longo da história, é o Espírito quem regenera, renova e conduz o povo de Deus até a plenitude do Reino.


SP-21/12/2025


Fontes e Bibliografia:

🔥 PENTECOSTAIS

HORTON, Stanley M.
HORTON, Stanley M. Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.
HORTON, Stanley M. What the Bible says about the Holy Spirit. Springfield: Gospel Publishing House, 1976.

FEE, Gordon D.
FEE, Gordon D. God’s empowering presence: the Holy Spirit in the letters of Paul. Peabody: Hendrickson, 1994.
FEE, Gordon D. Paul, the Spirit, and the people of God. Grand Rapids: Baker Academic, 1996.

MENZIES, William W.
MENZIES, William W.; MENZIES, Robert P. Spirit and power: foundations of Pentecostal experience. Grand Rapids: Zondervan, 2000.
MENZIES, William W.; HORTON, Stanley M. Bible doctrines: a Pentecostal perspective. Springfield: Gospel Publishing House, 1993.


✝️ REFORMADOS CLÁSSICOS

CALVINO, João.
CALVINO, João. Institutas da religião cristã. 4 vols. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
CALVINO, João. Comentário sobre os Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paracletos, 2009.

LUTERO, Martinho.
LUTERO, Martinho. Da liberdade cristã. São Leopoldo: Sinodal, 2015.
LUTERO, Martinho. Sermões sobre Atos dos Apóstolos. Porto Alegre: Concórdia, 2008.

EDWARDS, Jonathan.
EDWARDS, Jonathan. A treatise concerning religious affections. New Haven: Yale University Press, 1959.
EDWARDS, Jonathan. Some thoughts concerning the present revival of religion. Carlisle: Banner of Truth, 1978.


🌍 PROTESTANTES CONTEMPORÂNEOS

WRIGHT, N. T.
WRIGHT, N. T. Paul and the faithfulness of God. Minneapolis: Fortress Press, 2013.
WRIGHT, N. T. Surprised by hope. New York: HarperOne, 2008.
WRIGHT, N. T. Acts for everyone. London: SPCK, 2008.

McGRATH, Alister.
McGRATH, Alister. Christian theology: an introduction. 6. ed. Oxford: Wiley-Blackwell, 2017.
McGRATH, Alister. Reformation thought: an introduction. Oxford: Wiley-Blackwell, 2012.

PIPER, John.
PIPER, John. Desiring God: meditations of a Christian hedonist. Colorado Springs: Multnomah, 2011.
PIPER, John. A hunger for God. Wheaton: Crossway, 1997.


⛪ CATÓLICOS

AGOSTINHO, Santo.
AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Paulus, 2019.
AGOSTINHO. A Trindade (De Trinitate). São Paulo: Paulus, 2015.
AGOSTINHO. A cidade de Deus. Petrópolis: Vozes, 2018.

AQUINO, Tomás de.
AQUINO, Tomás de. Suma teológica. 9 vols. São Paulo: Loyola, 2001.
AQUINO, Tomás de. Comentário aos Atos dos Apóstolos. São Paulo: Ecclesiae, 2014.

RAHNER, Karl.
RAHNER, Karl. Fundamentos da fé cristã. São Paulo: Paulus, 2004.
RAHNER, Karl. Ensaios teológicos. São Paulo: Herder, 1974–1984.





quinta-feira, dezembro 18, 2025

O Alto Custo de Estar Perdido


O Que Podemos Fazer a Respeito


Sunset

Por Alan R. Johnson


Embora meditar sobre o juízo eterno seja algo doloroso, a Igreja não pode descartar essa verdade por causa do desconforto que provoca, nem porque os não cristãos zombam dessas ideias. A nossa resposta ao desafio de alcançar os perdidos precisa começar agora.

“Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19:10).

“Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores…” (1 Timóteo 1:15).

 

Estávamos sentados em um pátio, junto ao muro externo de um templo famoso. Eu estava com amigos que me convidaram para participar de uma pesquisa sobre um dos povos menos alcançados do mundo. Diante de mim, havia de 200 a 300 idosos, conversando animadamente. Atrás de nós, erguia-se um santuário. Aprendemos que aquelas pessoas passavam um mês inteiro na capital realizando rituais religiosos antes de retornarem às suas aldeias.

Foi um momento profundamente comovente para todos nós, quando a realidade nos atingiu com força avassaladora: todos aqueles idosos estavam fora do alcance de qualquer testemunho cristão. Já próximos do fim de suas vidas, pertencentes a um povo com um dos menores acessos ao evangelho no mundo, eles encaravam a eternidade sem nenhum conhecimento da mensagem salvadora de Jesus.

Passei quase 28 anos vivendo entre um povo budista, cuja população conta com apenas 0,3% de cristãos protestantes, de qualquer vertente. Ao meu redor há milhões de pessoas que jamais conheceram um cristão ou ouviram uma apresentação relevante do evangelho. O isolamento em relação à mensagem cristã não é, para mim, um conceito acadêmico distante. A condição espiritual perdida da humanidade me angustia profundamente. Há dias em que esse peso parece insuportável.

Ao nos afastarmos daquele pátio, meus olhos se encheram de lágrimas e meu coração foi tomado por um profundo clamor em oração. No mundo de hoje, falar que pessoas estão perdidas e separadas de Deus é algo impopular, especialmente no Ocidente. Aqueles que afirmam que todos os caminhos levam a Deus considerariam equivocada a minha dor por essas pessoas. Contudo, as Escrituras respondem às objeções e às perguntas tanto de cristãos quanto de não cristãos. Precisamos voltar à Bíblia para compreender o que significa estar perdido e como devemos responder a um mundo perdido.



O Alto Custo de Estar Perdido

Quando Jesus definiu Sua missão dizendo que veio “buscar e salvar o que se havia perdido”, Ele resumiu Sua obra em verdades centrais da fé bíblica. A Bíblia ensina que Deus criou o ser humano à Sua imagem para viver em comunhão com Ele. A rebelião humana rompeu esse relacionamento. Aos olhos de Deus, estamos perdidos. Desviamo-nos do propósito para o qual fomos criados — experimentar comunhão com Ele — e do destino para o qual fomos chamados — viver em Sua presença como Seu povo. Como essa condição espiritual resultou de uma escolha livre, tornamo-nos responsáveis diante de Deus pelo pecado e pela rebelião. Estar perdido significa também necessitar de salvação do juízo.

A visão bíblica da humanidade como perdida, separada de Deus e necessitada de salvação e livramento do juízo está no coração do plano redentor de Deus. Essa é também a base para compreender toda a Escritura. O teólogo Christopher Wright afirma: “Toda a Bíblia pode ser apresentada como uma resposta muito longa a uma pergunta muito simples: O que Deus pode fazer a respeito do pecado e da rebelião da raça humana?”.

O livro de Gênesis não apenas narra como a humanidade se perdeu, mas também revela o alto custo dessa queda. Quando Adão e Eva desobedeceram a Deus, houve consequências temporais e espirituais. Em Gênesis 3, a queda despedaça todas as dimensões da vida humana — espiritualmente, no relacionamento com Deus; socialmente, nos relacionamentos humanos; e ambientalmente, na relação com a criação.

Wright observa que Gênesis 3 a 11 revela tanto a estrutura básica do projeto criador de Deus quanto os elementos de Sua graça. Contudo, “em outro nível, tudo está tragicamente à deriva em relação à bondade original do propósito de Deus. A terra está sob a sentença da maldição por causa do pecado humano. Os seres humanos continuam ampliando o catálogo do mal ao longo das gerações — ciúme, ira, assassinato, vingança, violência, corrupção, embriaguez, desordem sexual, arrogância”.

Os problemas que vemos nos primeiros capítulos de Gênesis e também em nossas sociedades hoje são sintomas de um relacionamento quebrado com Deus. Estar espiritualmente perdido traz consequências terríveis para a qualidade da vida humana. Paulo afirma que as experiências humanas presentes revelam a ira de Deus (Romanos 1:18) e que as pessoas colhem, nesta vida, os frutos de suas escolhas (Romanos 1:24–32).

Ainda que o juízo e os efeitos do pecado nesta vida sejam temporais, eles apontam para consequências espirituais ainda mais sérias. No Éden, Deus advertiu Adão e Eva de que a consequência da desobediência seria a morte (Gênesis 2:17). À medida que avançamos nas Escrituras, o Espírito Santo revela progressivamente mais sobre a morte espiritual e o Dia do Juízo pelos pecados. A esperança dos justos e o destino dos ímpios começam a tomar forma no Antigo Testamento. No Novo Testamento, surge a expectativa de um dia vindouro de ira, já anunciada pela pregação de João Batista (Mateus 3:7).

É, porém, nas palavras do próprio Jesus que encontramos o ensino mais explícito sobre o Juízo Final. Utilizando diversas imagens, Ele fala do inferno e do juízo como realidades terríveis.

O restante do Novo Testamento mantém essa mesma compreensão. Por causa da natureza caída da humanidade, somos, por natureza, filhos da ira (Efésios 2:3). Há um tempo futuro de ira (Romanos 5:9; 1 Tessalonicenses 1:10). O salário do pecado é a morte (Romanos 6:23). Aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o juízo (Hebreus 9:27). Há um Dia de Juízo e de destruição dos ímpios (2 Pedro 2:9). O livro do Apocalipse revela o grande Trono Branco, onde serão julgados aqueles que rejeitam a Cristo (Apocalipse 20:11–15).

Intérpretes pentecostais sinceros, que levam a Bíblia a sério, lutam para compreender plenamente esses textos que falam do inferno. Essas verdades ultrapassam nossa experiência humana. Diante das realidades eternas, a linguagem humana falha, e alcançamos os limites do nosso entendimento. As imagens — muitas delas ditas pelo próprio Jesus — são intensas: fornalha ardente, fogo que nunca se apaga, o verme que não morre, trevas, choro e ranger de dentes, fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos, punição eterna, lago de fogo e separação da presença do Senhor. Embora haja divergências entre estudiosos quanto a detalhes, há um consenso de que o inferno é um lugar de sofrimento indescritível, e que a Bíblia se preocupa mais em destacar a seriedade do juízo vindouro do que em explicar sua natureza exata.

A condição perdida do ser humano e o juízo que se aproxima são verdades bíblicas desconfortáveis e cheias de questionamentos. Os não cristãos zombam dessas ideias, e muitos cristãos têm ignorado cada vez mais o ensino bíblico sobre céu e inferno. Segundo uma pesquisa de 2007, apenas 11% dos cristãos americanos acreditam que exista uma única religião verdadeira. Isso significa que muitos que se identificam como cristãos pentecostais já não creem que Deus julgará aqueles que rejeitam o evangelho, pois consideram que existam vários caminhos eficazes para Deus.

A ideia de que as pessoas estão espiritualmente perdidas e debaixo do juízo divino ofende os não cristãos, que usam esse ensino para atacar o caráter de Deus, chamando-O de cruel por punir eternamente os pecadores.

Diante desse cenário, a Igreja precisa se aprofundar nas Escrituras e articular com clareza a fé bíblica. Necessitamos da direção do Espírito Santo e de grande sabedoria para dialogar com os incrédulos.

Embora seja doloroso refletir sobre o juízo eterno, não podemos abandonar essa verdade por causa do desconforto. Negligenciá-la esvazia tudo o que a Bíblia ensina sobre Deus, o pecado e a obra de Cristo na cruz. Precisamos lembrar que, ao mesmo tempo em que a Bíblia é clara sobre o juízo, ela também é clara sobre a liberdade humana e sobre o quanto Deus fez para nos oferecer salvação. Jesus veio aos seus, mas os seus não o receberam (João 1:11). A luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz (João 3:19). Paulo declara que os homens suprimem a verdade pela injustiça e são indesculpáveis por rejeitarem o conhecimento de Deus revelado na criação (Romanos 1:18–20). O Apocalipse mostra que, mesmo em meio a juízos terríveis, muitos não se arrependerão das obras de suas mãos (Apocalipse 9:20).

Um estudioso afirma que o inferno demonstra o quanto Deus valoriza a liberdade humana: Ele não forçará ninguém a passar a eternidade em Sua presença contra a própria vontade. Ainda assim, a Bíblia é um livro de esperança, anunciando uma salvação rica e abundante oferecida a todos. A nossa resposta aos perdidos deve refletir a resposta de Deus.


O Que Podemos Fazer Pelos Perdidos Hoje?

Para aqueles que creem no ensino bíblico sobre a humanidade perdida, a tarefa pode parecer esmagadora. Mas os mesmos textos que falam de juízo também proclamam que Deus abriu um caminho de salvação. O pecador pode ser reconciliado com o Deus vivo.

A Bíblia é, acima de tudo, boas-novas. Ela anuncia que um dia Deus restaurará todas as coisas (Efésios 1:10). Jesus deu Sua vida em resgate por muitos (Marcos 10:45). Ele nos chama para participar de Sua missão de buscar e salvar os perdidos. O Pai não quer que ninguém se perca (Mateus 18:14), e há grande alegria no céu por um pecador que se arrepende (Lucas 15:7,10). Pela cruz, Jesus nos livra da ira vindoura (Romanos 5:9). Cristo veio ao mundo para salvar pecadores (1 Timóteo 1:15). Ele destruiu a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho (2 Timóteo 1:10).

A condição perdida do mundo não deve nos paralisar, mas nos impulsionar. Esse é o coração das missões pentecostais desde Atos 1:8: poder do Espírito Santo para testemunhar até os confins da terra.

Este é o tempo em que vivemos. Deus nos chamou — individualmente e como movimento — para participar de Sua missão. Para isso, precisamos de uma renovada visão bíblica dos perdidos e de um peso sobrenatural do Espírito Santo.


Os Perdidos e a Necessidade da Obra do Espírito

Em Gênesis 3:9, Deus chama Adão: “Onde estás?”.

Essas palavras revelam o coração buscador de Deus. Somente o Espírito Santo pode gerar em nós esse mesmo amor e essa mesma urgência pelos perdidos. Cuidar do destino eterno das pessoas não é natural; é uma obra do Espírito em nossos corações.

Se voltarmos à simplicidade do Pentecostes — oração, poder e testemunho — seremos renovados. Não por força humana, mas pelo quebrantamento diante de Deus. Precisamos cair de joelhos, reconhecer nossa insuficiência e clamar por misericórdia, poder e estratégias divinas.

Se para aqueles idosos no pátio talvez fosse tarde demais, ainda há esperança para multidões, desde a sua cidade até os confins da terra. Elas precisam ouvir o convite amoroso da salvação em Cristo. Precisam voltar para a casa do Pai e não estar mais perdidas.


SP-18/12/2025.






quarta-feira, maio 27, 2015

A derrota da invencível armada de Felipe II


Invencible Navy
A "Invencível" Armada

Daniel Dañeiluk

Tradução: João Cruzué

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Lá pelo fim do século XVI, a Contrarreforma já se havia estabelecido e o catolicismo recuperava o terreno que outrora foi conquistado pelos protestantes. Por certo, não pela força do convencimento, senão pela aniquilação sistemática. Entretanto houve um momento na História que se definiria o destino da Reforma: sua consolidação ou seu desaparecimento.

Desde 1556, Felipe II reinava em Espanha, pela Casa dos Habsburgo, aliados de Roma e arqui-inimigos dos protestantes. No apogeu de seu poder, decidiu invadir a Inglaterra - então um bastião protestante. Para este objetivo, ele preparou uma força naval imensa que foi chamada de "A Invencível Armada".

Em 20 de maio de 1588 partiram de Lisboa rumo a Inglaterra 130 brigues com 8.253 marinheiros, 2.088 remadores, mais 19.295 homens de guerra. As possibilidades britânicas eram escassas, mas não segundo a visão da Rainha Elizabeth I. Longe de qualquer ideia de acordo ou capitulação, ordenou a defesa e convocou uma campanha de oração. 

E o impossível aconteceu.

As forças de Felipe II foram surpreendidas em meio a mais terrível das tempestades. Alguns historiadores contam que o clima era tão adverso e a confusão de tal magnitude, que a esquadra espanhola foram dispersas, enquanto algumas de suas naves se chocaram entre si. Enquanto isso, na costa inglesa o clima se mostrava mais tranquilo, com ventos mar adentro que favoreciam o alcance dos canhões de tal maneira que os ingleses levaram bastante tempo em se darem conta da magnitude das baixas que os frustrados invasores haviam sofrido.

Como resultado desta batalha, o equilíbrio das forças mudou até os dias de hoje. Entre outras consequências, os ingleses passaram a dominar os mares e o destino do desaparecimento da invencível armada.

Depois da catástrofe, Felipe II disse: "Eu enviei minhas naves para lutar contra homens, não contra tempestades." Por seu lado, a Rainha Elizabeth I mandou fazer uma inscrição que dizia: "Deus soprou e foram dispersos"



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