sexta-feira, agosto 31, 2012

A animalização da mulher nas letras do funk

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 O funk em quatro atos

João Cruzué

O movimento funk carioca chegou à periferia da Capital paulista há pelo menos oito anos. Como foi difícil aguentar durante alguns meses o som alto das caixas tocando uma música chamada "bonde do tigrão". Mais recentemente, nos fins de semana, a coisa evoluiu. As caixas deixaram as janelas abertas das salas e foram para os porta malas ou mesmo dentro dos carros com potências turbinadas, para tocar funk a qualquer hora do dia, da noite e da madrugada. O febre do funk definitivamente "pegou" na "perifa" de Sampa.

O som muito alto, entretanto, não é o que mais me incomada no Funk. São as letras com palavras chulas despersonificando a mulher que me assustam. Um dia desses, alguns moços do bairro escolheram o começo da minha rua, para colocar o carro na calçada com o porta malas aberto e dali começou um batuque funkeiro em volume máximo. Apesar de, a esta altura de meus 53 anos, já estar um pouco surdo, por causa de barulho, o batuque não incomodava tanto. Mas uma letra "chulíssima" invadia a privacidade de todas as casas da vizinhança, ofendendo todas as mulheres, inclusive minha esposa e minha filha. Era um tal que passar a mão ali... sendo este "verso" um dos mais "castos", entremeado com gritos de orgasmos femininos, palavrões, entre outras coisas que não mencionar aqui. Reclamei, quase apanhei, mas mais o carro não foi mais foi colocado ali.

Como cristão, preciso analisar a assnto sob dois ângulos. Pela ótica de um cidadão, posso dizer que tomei uma atitude de resistência pacífica, sem aceitar a provocação para um confronto físico, graças a Deus, foi uma surpresa não ter apanhado para resolver o problema. Pelo lado espiritual, há outras coisas envolvidas que de agora em diante vou analisar. pois diz repeito ao ao propósito do texto.

Não posso dizer que a música funk seja do diabo, mas quanto as suas letras - posso sim! Elas partem do pressuposto de que toda mulher é uma prostituta, pois usam as palavras e palavrões desse meio. Não estou desprezando prostitutas, são dignas de ouvir o Evangelho, mas estou referindo-me a um linguajar que não é próprio fora do meio. Uma comunidade inteira fica exposta a ouvir este som móvel até se acostumar com ele, goste ou não. Estas letras sujas do funk tiraram a mulher de uma condição que já era ruim, para a condição de animal inferior. De objeto de desejo sexual, para uma cadela disposta à cruza. A diferença entre o sexo conjugal cantado em pura poesia bíblica em Cantares de Salomão para uma letra horrorosa e porca da música funk fica muito bem comparada usando apenas duas frases. "Amada minha" x "cachorras, preparadas e novinhas".

Estive conversando com minha filha, já casada,  ela me disse uma coisa muito triste. Na sua opinião aquelas adolescentes da periferia que estão hoje "quebrando" e balançando o traseiro no meio da rua, daqui a um futuro não muito distante vão estar grávidas. Seus bebês muito provavelmente não conhecerão o pai e serão criados pelos avós. Crescerão revoltados, agressivos, doidos, não porque lá no fundo sejam isso, mas porque usam desse artifício para encobrir a despersonalização. Quando olham outras crianças andando com os pais, e sentindo a falta de um que não conhecem, deparam-se com um vazio que não conseguem suportar. Eles são o produto do desamor, não de um ato conjugal, mas de uma "cruza" entre um "tigrão" e uma "cachorra."

Conheço alguém de um projeto social contando histórias para crianças de periferia. Em sua roda de leitura tinha um garoto terrível, perturbado e malvado. Conversando com ele, ela conta que descobriu que  era super carente de amor. Sua maior frustração era não poder conhecer o pai. Nem sua mãe sabia quem ele era. Aliás, foi criado pela avó, uma vez que a mãe casou-se e tem outra família. Conta ainda, que em determinado dia, pediu às crianças da roda, que levassem algum brinquedo para uma melhor interação livro-criança, na próxima roda. Uns levaram carrinhos, outros celulares de verdade, bonecas etc. Como não tinha nada, o garoto "malvado" levou uma tesoura de costura velha!

Assim, em um país tão mal administrado, onde as receitas públicas são gastas primariamente com juros pagos a banqueiros e agiotas, o enfraquecimento econômico da família nas classes mais baixas é real e aviltante. Cada família enfraquecida não consegue estudar seus filhos;  sem Educação não há como romper com a miséria. Na periferia das cidades grandes eles encontram diversão no Funk. Eu critico as letras do funk que depreciam a mulher, porque suas palavras chulas e movimentos obscenos só fazem aumentar a miséria já existente quando usam a música para roubar sua dignidade, tratando-a como se fosse um animal.






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Um comentário:

Isabel Cristina Viana Ramalho disse...

Concordo plenamente com tudo o que postou. Sou professora em uma escola pública de periferia e nossos alunos e alunas vêm de lares desestruturados, onde a falta de afeto é enorme e eles têm auto-estima baixíssima. Vivem brigando, falando palavrões para os colegas, funcionários e nós, professores. Não respeitam ninguém e não adianta falar com seus pais.
Parece até que estamos dando murro em ponta de faca.
Por mais que tentemos fazer algo por eles, na escola, a "família" derruba tudo oque tentamos construir.
Só a Misericórdia Divina para nos fortalecer nesta empreitada.
O Funk, como colocou é uma das podridões desta sociedade corrompida. A dança e as suas letras são horríveis e coloca as mulheres numa situação de degradação total.

Um abraço.

Isabel Ramalho

http://mulhersemeadoradobem.blogspot.com/