terça-feira, dezembro 30, 2025

Reflexão sobre o Salmo 126 - A Volta para Sião

 

Em meio ao cinza, havia uma canção.

Wilma Rejane


Salmo 126:1-Quando o Senhor trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, estávamos como os que sonham. 

O Salmo 126 foi escrito por um exilado judeu que experimentou  70 anos de deportação de Jerusalém para Babilônia. Qual o nome desse prisioneiro? Não se sabe. O que se sabe é que sua gratidão e louvor por ter retornado a Sião são e salvo, está registrada como  um cântico de celebração ou um Cântico dos degraus.

E que degraus eram esses? Eram os degraus das subidas entre Jerusalém e a Babilônia (Esdras 7:9) e os degraus do templo de Jerusalém,onde,ano a ano peregrinos se reuniam para relembrar a libertação do cativeiro. Cada degrau um novo cântico,um novo Salmo. No total, são quinze os Salmos denominados "dos degraus ou das romagens" do 120 ao 134.

O Salmo 126 é tão belo quanto os demais e versa especialmente sobre restauração. O autor faz uso de três metáforas para expressar a alegria do retorno para casa: Um sonho agradável, as águas frescas das torrentes do Neguev e as festividades da colheita. Lendo esse Salmo, logo no primeiro verso, encontro inúmeras lições que servem de referencial para os tempos de crises, de cativeiros enfrentados por nós em determinados momentos da vida. 

O cativeiro Babilônico teve inicio em 598 a. C e nos livros dos profetas Ezequiel, Jeremias, Daniel, Ageu e Zacarias é possível constatar relatos da época, bem como dos propósitos de Deus para a nação de Israel que estava sob julgamento. No livro de Esdras há um rico relato do período de retorno da Babilônia, do mover de Deus sobre a nação de cativos que com arrependimento e choro retornaram para os seus lares.

Mas o que aconteceu com os cativos  durante os 70 anos de crise? Como encontraram forças e ânimo para permanecerem esperançosos e confiantes de que tudo iria passar e Deus estava com eles? Não deve ter sido fácil porque a Babilônia procurou de todas as formas oprimir e roubar toda esperança do retorno. E é da Babilônia que nos chegam revelações do que acontece no mundo espiritual em tempos de crise. Claro, nem toda crise é resultado do juízo de Deus sobre nós. Existe base Bíblica para afirmar que até mesmo homens justos e tementes a Deus podem passar por cativeiros terríveis,foi o que aconteceu com Jó.

Se é difícil encontrar os porquês das crises, se não há unanimidade quanto a isso, porém,há unanimidade em outro aspecto das crises: elas confrontam nossa fé e força e todos, sem exceção, precisam lidar com elas, de modo a não se deixar abater, naufragar. Por esse motivo, é que olhar para o cativeiro nos ensina. Eclesiastes 7:5 diz: "O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria." Então, vamos aprender com a casa do luto?

Algumas dificuldades vividas pelos cativos na terra da Babilônia:

I- Uma das primeiras investidas do exército da Babilônia (sob o domínio de Nabucodonosor II) contra os judeus foi: saquear as preciosidades do templo de Jerusalém. Tudo quanto havia em ouro, prata, metais preciosos foram levados embora (Jeremias 52). 

O templo de Jerusalém era uma representação da presença de Deus,  um elo entre Deus e o povo. Era lá que os sacerdotes se reuniam para transmitir a Palavra de Deus, manejar as ofertas sagradas.

O templo saqueado indicava o inicio de um período de tristeza. Consideremos que nós somos o Templo do Espírito Santo de Deus. Quando as crises vêm elas têm o objetivo de saquear esse Templo: roubar a alegria, o gozo,a comunhão com Deus, o que há de mais valioso em nossas vidas. O templo estava vazio, mas sua estrutura estava lá de modo que ainda era possível sonhar com um retorno, com as festas e as reuniões solenes. Não por muito tempo, porque os opressores também investiram para destruir essa esperança.

II- Sacerdotes e ferreiros estavam na primeira turma de cativos (Jeremias 24:1)

Sem sacerdotes e sem ferreiros o povo enfraquecia. Não havia direção de Deus, não haviam armas para contra atacar. Até mesmo no exílio essas funções foram proibidas de serem exercidas, em Lamentações de Jeremias se lê:

Lamentações 2: 9 - "As portas de Jerusalém já de nada servem. Todas as fechaduras e cadeados estão violados e partidos; foi ele mesmo quem os arrombou. Os seus reis e os nobres estão escravizados em terras desconhecidas e afastadas, sem um templo, sem leis divinas para os governarem, sem visão profética para os guiar."

Efésios 6:10-18 afirma que nas crises trava-se uma batalha espiritual. Os recursos espirituais estavam sendo roubados de Israel. Armas materiais não mais haveriam e as espirituais precisavam ser buscadas, de modo individual. os profetas da prosperidade haviam sido envergonhados, suas mensagens de paz e bênçãos não se cumpriram e aos cativos restava ouvir os profetas dos "ais" (Lamentações 2:14). e ouvindo os "ais" cada um deveria buscar a Deus em arrependimento. 

O que aprendemos aqui? A salvação é individual. Romanos 14:12 diz: "De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus." Desconfie de qualquer evangelho que não pregue arrependimento e afastamento do pecado. Desconfie dos caminhos e portas largas que não exigem renúncia e comprometimento com Deus. Desconfie da ritualidade eclesiástica, porque Evangelho é libertação é relacionamento com Deus através de Jesus Cristo. Evangelho é restauração do Templo, é novo nascimento com retorno ao Criador para fazer a Sua vontade. 

I Pedro 1:23 "Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre.

Cada cativo precisava viver sua própria experiência, crescer pessoalmente na compreensão sobre Deus. Crises são aprendizados e não adianta querermos apenas culpar os outros pelo que não deu certo. É preciso fazer a nossa parte, refletir: onde preciso melhorar? 

III- A cidade destruída e a batalha para reergue-la.

Como voltar para os lares se a cidade estava em ruínas? Deus providencia o recomeço e instrui a Esdras para liderar a obra de restauração. Mas a Babilônia sabia que com os muro reerguidos e o templo em funcionamento, o retorno se tornaria possível, a esperança renasceria para os cativos que se tornariam mais fortes.


Esdras 4:4-5 "Todavia o povo da terra debilitava as mãos do povo de Judá, e inquietava-os no edificar. E alugaram contra eles conselheiros, para frustrarem o seu plano, todos os dias de Ciro, rei da Pérsia, até ao reinado de Dario, rei da Pérsia."

Não é assim também conosco? A Babilônia, não quer nos vê de pé e felizes, mas quando Deus ordena, Seus planos não se frustram. Havia chegado a hora do retorno, as ruínas do passado precisavam dar lugar a uma cidade forte. Salmo 113:7 diz que "Deus Levanta o pobre do pó e do monturo levanta o necessitado."

Se estamos dispostos a mudar a direção de nossas vidas, os pecados serão  perdoados. De vidas despedaçadas: por vícios, medos,abandonos, rebeldia...O que for, Deus ajunta os cacos e ergue fortalezas. Mas será preciso esforço, entrega. Não se pode esperar que outros façam por nós o que só nós podemos fazer. Israel não tinha mais que confiar em templos, reuniões, sacerdotes da prosperidade, armamentos. Israel tinha que decidir andar com Deus, as bençãos seriam consequências.

Para reconstruir Jerusalém, nem mesmo as pedras queimadas pelo fogo do incêndio provocado pelo exército inimigo foram descartadas. Elas serviram de alicerce para novas construções.  É isso mesmo, Deus é divinamente paciente para nos tratar com amor e perdão. Ele não quer nossa destruição, antes,porém, quer nosso crescimento e felicidade. E se para isso tiver que nos corrigir, assim seja. Sábio será o que aceitar a correção.

Hebreus 12:11 "E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela."


 A restauração:
  • Quando o Senhor trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, estávamos como os que sonham.
  • Então a nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de cântico; então se dizia entre os gentios: Grandes coisas fez o Senhor a estes.
  • Grandes coisas fez o Senhor por nós, pelas quais estamos alegres.
  • Traze-nos outra vez, ó Senhor, do cativeiro, como as correntes das águas no sul. 
  • Os que semeiam em lágrimas segarão com alegria.
  • Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos. 
Salmos 126:1-6

No final, a recompensa  chega como as correntes do Sul, que lugar é esse? Se refere as torrentes no deserto de Neguebe, um lugar inóspito ao Sul de Jerusalém. Ali existe um leito de rio vazio e seco em alguns períodos do ano, mas de repente, e sem haver chuva ou explicação, o lugar é inundado por torrentes de águas, e o lugar então, faz jus a indicação: "correntes do Sul" ou "torrentes do Sul" que transbordam como em um fenômeno.

No final o que foi plantado com choro, é colhido com alegria. Por que foi plantado com choro? Porque o terreno era trabalhoso, a caminhada era penosa, as sementes foram conseguidas com tanto esforço que mesmo andando e chorando o semeador não as soltou, não as desprezou. Pelo contrário, ele as sustentou com todo o zelo e acreditou que floresceriam. Que grande lição de fé nos dá esse Salmo!

Nesse momento, temos em diversas partes do mundo, servos fiéis  passando por cativeiros: missionários em prisão, mulheres em decepção por causa de um relacionamento, homens desempregados, quem sabe doenças, morte. Todos esses cativeiros são reais, mas não podemos soltar as sementes das promessas de Deus, não podemos perder jamais a alegria de ter o Reino de Deus em nós. As torrentes do Sul, podem jorrar como um despertar espiritual nos proporcionando crescimento que não alcançaríamos, de outra forma, que não através do choro de arrependimento, decepção, tristeza e outros regressos.


Que o Deus da restauração o abençoe.

Fonte de pesquisa: Bíblia de Estudo Plenitude, Sociedade Bíblica do Brasil, SP. Edição 1995.

sábado, dezembro 27, 2025

John Flynn - O Missionário da Austrália



Pesquisa de João Cruzué

John Flynn nasceu em 25 de novembro de 1880 em Moliagul, no estado de Victoria, Austrália, filho de Robert Flynn e Margaret Flynn (nascida McLachlan), imigrantes de origem escocesa que buscavam melhores condições de vida em um país ainda em desenvolvimento. O pai, Robert, era homem prático, trabalhador rural, acostumado à rotina dura das propriedades do interior australiano, enquanto a mãe, Margaret, cuidava da casa e dos filhos com disciplina tranquila, transmitindo valores de perseverança e solidariedade. Esse ambiente familiar simples e dedicado moldou desde cedo a visão de mundo de Flynn, pautada em compromisso com o próximo.

Quando John tinha apenas sete anos, sua mãe Margaret adoeceu gravemente e faleceu após uma longa enfermidade. A morte prematura de sua mãe deixou uma marca profunda na sua formação emocional e ética, pois expôs Flynn ao sofrimento de quem enfrenta a vida sem apoio e assistência adequada. A ausência da mãe fez crescer nele o senso de responsabilidade para com os outros, especialmente os que estavam em situações de fragilidade. Robert, o pai, precisou então equilibrar o trabalho no campo com a educação dos filhos, transmitindo a John a importância do esforço contínuo.

Durante a juventude, Flynn frequentou escolas locais, demonstrando grande curiosidade intelectual e uma capacidade acima da média para leitura e raciocínio. Embora a família não fosse abastada, os pais incentivaram seus estudos, entendendo que a educação poderia abrir portas para futuro diferente na Austrália em rápida transformação. Essa confiança dos pais contribuiu para que Flynn desenvolvesse também uma profunda consciência de que a formação de um indivíduo tinha impacto direto na capacidade de servir à comunidade.

A decisão de Flynn de seguir os estudos teológicos e tornar-se pastor presbiteriano não foi abrupta nem isolada de sua história familiar. Ele próprio reconheceu mais tarde que a forma como seus pais viveram — com trabalho duro, fé e generosidade — influenciou sua escolha vocacional. A teologia lhe oferecia não apenas um caminho espiritual, mas uma plataforma para agir diretamente em prol das pessoas que enfrentavam injustiças e desigualdades no acesso a serviços e cuidados essenciais.

Ordens de ministro em 1911, Flynn começou a viajar pelo “Outback” australiano, região caracterizada por longas distâncias, clima árido e populações dispersas. A combinação da própria experiência de vida no interior com a formação espiritual e social que ele recebera em casa e na igreja o motivou a ouvir atentamente os relatos de famílias que enfrentavam doenças e acidentes sem qualquer suporte médico por dias ou semanas a fio.

O sofrimento que testemunhou nas estradas e vilarejos isolados fez Flynn refletir sobre a própria infância e sobre as histórias contadas por sua mãe — de comunidades pequenas que se uniam em tempos de necessidade. Ele percebeu que a ausência de cuidados de saúde não era apenas problema individual, mas entrave para o desenvolvimento e dignidade das regiões remotas e de seus habitantes, muitos dos quais eram filhos de famílias tão humildes quanto a dele.

Com o aprofundar de suas viagens e conversas, Flynn passou a documentar sistematicamente as dificuldades enfrentadas. Ele compôs relatórios e artigos que chamavam atenção não apenas para aspectos médicos, mas para a condição social geral dessas populações. O trabalho significava para ele tributo à memória da mãe e à resiliência do pai, cuja dedicação ao lar e ao trabalho tinham sido pilares em sua formação.

Ao identificar as limitações das rotas terrestres e da comunicação tradicional, Flynn passou a defender o uso de tecnologias emergentes como aviões e rádios para reduzir o tempo de resposta médico. Essa visão inovadora vinha da convicção de que nenhuma pessoa, independentemente da localização, deveria ser condenada pela distância ou pela falta de infraestrutura — um princípio que refletia diretamente a ética de cuidado e igualdade aprendida em sua casa familiar.

Em 1928, Flynn tornou realidade a fundação do Aerial Medical Service, com apoio financeiro de doadores, pilotos voluntários e médicos dispostos a enfrentar desafios consideráveis. A partir desse serviço inicial, que contava com poucas aeronaves e sistemas de rádio rudimentares, construiu-se o que hoje é conhecido como o Royal Flying Doctor Service of Australia (RFDS). Cada missão bem-sucedida consolidava a ideia de que tecnologia e solidariedade social poderiam caminhar juntas.

O RFDS cresceu em complexidade, com planejamento de rotas médicas, infraestrutura própria e equipes especializadas. A organização tornou-se serviço contínuo, salvando milhares de vidas e reduzindo drasticamente a mortalidade por causas tratáveis em áreas isoladas. Flynn passou a ser saudado não apenas como líder religioso, mas como dos principais agentes de transformação social do país, integrando sua formação espiritual e seus valores familiares à ação prática.

Flynn continuou ativo até os últimos anos de sua vida, publicando cartas, relatórios e incentivando políticas públicas que reconhecessem a importância da assistência médica digna em todo o território nacional. Sua obra consolidou-se não apenas no reconhecimento institucional, como a presença de seu retrato na nota de 20 dólares australianos, mas na vida de centenas de milhares de pessoas que passaram a ter acesso a cuidados que antes seriam impossíveis.

Ao morrer em 5 de maio de 1951, John Flynn deixou um legado que transcende a biografia de um indivíduo: ele demonstrou que a junção de fé, inteligência, coragem e ação pode superar barreiras aparentemente intransponíveis. Sua história, enraizada nas experiências familiares, no sofrimento pessoal diante da perda e no compromisso ético com a igualdade, permanece como exemplo duradouro de como valores humanos e inovação podem transformar sociedades inteiras.


 BIBLIOGRAFIA:

BRADFORD, Gillian. John Flynn: The Man and His Legacy. Melbourne: National Library of Australia, 2015.

PAGE, Michael. The Flying Doctor Story. Sydney: Angus & Robertson Publishing, 1990.

WILKINSON, R. G. John Flynn: Apostle to the Inland. London: Hodder & Stoughton, 1932.

ROYAL FLYING DOCTOR SERVICE OF AUSTRALIA. History of the RFDS. RFDS Publications, 2008.

FLYNN, John. The Bushman’s Companion. Australia Inland Mission Press, 1910–1930.