segunda-feira, janeiro 12, 2026

Perseguição de Cristãos no Irã

 


Pastor Joseph Shahbazian

Pesquisa de João Cruzué

12/01/2026

ESCALADA BRUTAL DA PERSEGUIÇÃO (2024-2025)

A perseguição atingiu níveis sem precedentes. Em 2024, cristãos foram condenados a mais de 250 anos de prisão, um aumento de seis vezes em relação a 2023 Gospel Mais. Tribunais iranianos sentenciaram 96 cristãos a 263 anos de prisão em 2024, comparado a 22 cristãos com 43 anos totais em 2023 Ultimato.

Casos emblemáticos recentes:

  • Pastor Joseph Shahbazian, Nasser Navard Gol-Tapeh e três mulheres receberam sentenças combinadas de 50 anos de prisão por atividades religiosas incluindo oração, batismo e distribuição de Bíblias Barnabas Aid
  • O juiz responsável foi Abolqasem Salavati, conhecido por impor longas sentenças em casos envolvendo ameaças percebidas à segurança nacional Barnabas Aid
  • Pastor Joseph perdeu sua mãe idosa enquanto estava preso, sendo seu principal cuidador, e não pôde estar presente nem no funeral ACN


O ARTIGO 500: ARMA LEGAL CONTRA CRISTÃOS

A emenda ao Artigo 500 do Código Penal, aprovada pelo parlamento iraniano e assinada em fevereiro de 2021, estabelece que "qualquer educação ou propaganda desviante que contradiga ou interfira com a sagrada sharia islâmica será severamente punida" Wikipedia.

Impacto devastador:

  • O Artigo 500 criminaliza "engajar-se em propaganda que educa de forma desviante contrária à sagrada religião do Islã" e prevê punição de até 5 anos de prisão, ou até 10 anos se o réu recebeu ajuda financeira ou organizacional de fora do país Human Rights Watch
  • Mais de 70% das acusações contra cristãos em 2024 foram apresentadas sob o Artigo 500 modificado Ultimato
  • A emenda permite até 5 anos de prisão por "qualquer atividade educacional ou proselitista desviante" por membros de "seitas" que "contradiz ou interfere com a sagrada lei do Islã" Open Doors US


PRISÃO EVIN: "FÁBRICA DE TORTURA"

Dos cristãos presos analisados onde a prisão é conhecida, 60% cumpriram pena na Prisão Evin Persecution.org. Este presídio é notório internacionalmente.

Condições e abusos documentados:

  • Numerosos relatórios documentam métodos de tortura como espancamentos, choques elétricos, execuções simuladas, confinamento solitário prolongado, confissões forçadas, privação de sono e abuso sexual Christian Post
  • Presos relataram mais de 70 tipos de tortura segundo relatório publicado pelo Reino Unido.
  • Cristãos relatam negação rotineira de cuidados médicos, interrogatórios intensos e condições de vida desumanas Persecution.org

Ala 209 - A "Prisão Secreta": A Ala 209 é um exemplo de ala secreta que existe dentro da Prisão Evin, completamente controlada pelo Ministério da Inteligência, ficando assim fora da supervisão de qualquer outra autoridade governamental Persecution.org. Pelo menos 11 cristãos foram documentados nesta ala por causa de sua fé.


TÁTICAS DE INTIMIDAÇÃO E CONTROLE

Fianças extorsivas: A fiança de Najaflou foi fixada em aproximadamente $130.000, e a de Gol-Tapeh em quase $250.000 Barnabas Aid - valores impossíveis para a maioria das famílias iranianas.

Sofrimento físico deliberado:

  • Pastor Shahbazian também experimentou complicações de saúde durante seu encarceramento Barnabas Aid
  • Amir-Ali Minaei tem problema cardíaco e suas solicitações para ver um especialista foram recusadas, sendo que foi espancado por um oficial prisional que o atingiu no peito, piorando sua condição ACN

·        Prisão de familiares: Lida Alexani, esposa do Pastor Joseph Shahbazian, foi presa em abril aparentemente como parte de estratégia mais ampla para pressionar seu marido ACN.

 

CONFISCO DE PROPRIEDADES E BÍBLIAS

Pertences pessoais, incluindo textos cristãos e Bíblias, foram confiscados dos réus e entregues ao Ministério da Inteligência para exame Barnabas Aid. A Bíblia é tratada como contrabando e evidência de crime Portas Abertas.

Foi notável em 2024 que em pelo menos dois casos, juízes usaram o Artigo 500 modificado para emitir ordens de confisco de propriedades e veículos cristãos Ultimato.


MULTAS EXORBITANTES

O sistema judicial iraniano aplicou quase $800.000 em multas numa tentativa de quebrar as costas de grupos eclesiásticos "dissidentes" Ultimato. Narges e Abbas foram multados em 330 milhões de tomans ($3.500) cada, e Mehran em 250 milhões ($2.750) Revistashowdafe.


CONVERSÃO COMO "CRIME DE SEGURANÇA NACIONAL"

Autoridades disseram a alguns detidos cristãos que "estados estrangeiros hostis", incluindo "grupos sionistas", estão ativamente apoiando organizações cristãs no Irã, racionalizando as medidas severas tomadas contra finanças eclesiásticas como questão de "segurança nacional" Ultimato.

O regime considera a conversão de muçulmanos ao cristianismo como tentativa ocidental de minar o governo islâmico, transformando uma questão de consciência religiosa em ameaça existencial ao Estado.


DADOS ALARMANTES

  • Mais de 300 foram processados somente em Teerã, com quase 100 sentenciados a longas penas de prisão por praticar sua fé Gospel Mais.
  • As prisões em 2024 foram realizadas por agentes de inteligência da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) Gospel Mais.
  • Pelo menos 21 cristãos continuam cumprindo sentenças no Irã por sua fé, com pelo menos 10 detidos na Prisão Evin

        A situação dos pastores cristãos no Irã representa uma das perseguições religiosas mais sistemáticas e brutais do mundo contemporâneo, com o aparato estatal usando leis ambíguas, tortura institucionalizada e terror psicológico para esmagar a comunidade cristã em expansão.

 

SP-12/01/2026

 



quinta-feira, janeiro 01, 2026

Salmo 116 - Teologia do Coração

 

Teologia do Coração

João Cruzué

É profundamente comovente ouvir alguém dizer "eu amo" não como uma declaração romântica ou casual, mas como o testemunho de quem foi resgatado. O salmista não começa sua história com doutrina ou teologia, mas com o coração exposto diz: "Eu amo o Senhor". E a razão é tão simples:  "porque Ele me ouviu". Às vezes, ser ouvido é tudo o que precisamos. Quando estamos afundando, quando a escuridão nos engole, não precisamos de discursos pedagógicos ou soluções instantâneas. Precisamos de alguém que escute nosso grito silencioso, inclinando-se em nossa direção.

As "cordas da morte" e "angústias do Sheol" carregam um peso que só quem já esteve lá consegue compreender. Existe um lugar na alma humana onde a luz parece ter se apagado completamente, onde cada respiração é um esforço, onde o amanhã parece impossível. Pode ser o diagnóstico que muda tudo, o luto que parte o coração ao meio, a depressão que rouba as cores do mundo, o fracasso que esmaga nossa identidade. O salmista não nos oferece respostas fáceis ou frases motivacionais. Ele simplesmente nos diz: "Eu também estive ali. Eu conheço aquele lugar".

E então vem o clamor. Não uma oração polida, com palavras cuidadosamente escolhidas. Apenas "Ó Senhor, livra a minha alma". Há tanta beleza nessa simplicidade. Quantas vezes nos sentimos inadequados para orar porque não sabemos o que dizer, como dizer, se estamos dizendo "certo"? Este salmo nos confronta com uma verdade libertadora: quando não há mais palavras bonitas, quando tudo o que resta é um grito socorro, isso é oração suficiente. Deus não precisa da nossa eloquência, mas de nossa honestidade.

A descrição de Deus como aquele que "protege os simples" toca profundamente. Os simples - aqueles que não têm planos mirabolantes, que não sabem como sair sozinhos, que chegaram ao fim de si mesmos. Existe uma graça particular para quem não usa máscaras, para quem não finge a força que não possui. Quando o salmista diz "eu estava abatido, e Ele me salvou", há refrigério nessas palavras. Você não precisa ser forte, não precisa ter respostas. Você pode chegar quebrado, e mesmo assim - especialmente assim - há lugar para você.

"Volta ao teu descanso, ó minha alma" soa quase como uma canção de ninar para um coração ferido. Às vezes precisamos embalar nossa própria alma de volta à paz, recordando com ternura: "Lembra? Lembra quando Ele enxugou suas lágrimas? Lembra quando Ele segurou seus pés quando você ia tropeçar?" A memória se torna um ato de resistência contra o desespero. Não estamos negando a dor presente, mas estamos nos ancorado na verdade do que já experimentamos. E isso importa mais do que podemos imaginar nos dias difíceis.

O salmista confessa algo vulnerável e real: houve momentos em que disse "todos os homens são mentirosos". Ele foi decepcionado, magoado e  talvez traído. As pessoas falharam com ele quando ele mais precisava. E mesmo assim, ele não deixou que a falibilidade humana definisse sua visão de Deus. Isso me traz esperança, porque todos nós já fomos feridos por pessoas, alguns profundamente. E é tão fácil deixar que essas feridas construam muros ao redor do nosso coração, inclusive em relação a Deus. Mas o salmista nos mostra outro caminho: podemos reconhecer a dor causada pelas pessoas sem fechar nosso coração para o divino.

A questão "como retribuirei ao Senhor?" não nasce de obrigação, mas de um coração transbordante. É como quando alguém nos ama tão bem que não conseguimos deixar de querer retribuir de alguma forma. O salmista escolhe a gratidão pública, o testemunho compartilhado, os votos cumpridos. Não porque Deus precise, mas porque o coração curado precisa transbordar. Há algo terapêutico em dizer em voz alta: "Olhem o que Ele fez por mim. Eu estava perdido e fui encontrado. Eu estava machucado e fui tratado". Nosso testemunho não é apenas um presente para Deus, mas também um presente para outros que ainda estão nas cordas da morte, esperando ouvir que há saída.

E assim, o salmo termina onde começou - em amor, em gratidão, em louvor. Mas agora é diferente. É o "Aleluia" de quem atravessou a noite mais escura e viu o amanhecer. Não é ingenuidade, não é negar a dor. É a sabedoria de quem aprendeu que mesmo nos lugares mais sombrios, nós não estamos sozinhos. Que nossas lágrimas são vistas, nossos clamores são ouvidos, nossos passos trôpegos são amparados. E isso - essa presença fiel no meio da tempestade - isso vale cada "Aleluia" que nossos lábios conseguem pronunciar.


SP-1º/01/2026