sábado, dezembro 13, 2025

Quando Falta Visão - Seis Casos de Miopia Estratégica

Visão
 

João Cruzué

 1. A Xerox, por meio do seu centro de pesquisa PARC (Palo Alto Research Center), desenvolveu nos anos 1970 tecnologias revolucionárias como a interface gráfica com janelas, o mouse, a metáfora de desktop e a computação pessoal em rede. À época, a alta administração da Xerox, voltada ao negócio tradicional de copiadoras, considerou tais inovações pouco relevantes comercialmente e não estruturou uma estratégia agressiva de patenteamento e exploração de mercado.

A Apple, liderada por Steve Jobs, teve acesso a essas tecnologias e incorporou a GUI ao Lisa e, posteriormente, ao Macintosh, redefinindo a indústria de computadores pessoais. A Microsoft seguiu o mesmo caminho com o Windows, tornando-se uma das empresas mais valiosas do planeta. A Xerox, embora pioneira, perdeu a chance de se tornar uma gigante da computação pessoal, enquanto Apple e Microsoft construíram impérios bilionários sobre conceitos que a Xerox julgou periféricos.

2. Os Bell Labs, da AT&T, criaram o UNIX no final da década de 1960, um sistema operacional altamente robusto, modular e portátil. Por restrições regulatórias e visão estratégica limitada, a AT&T licenciou o UNIX a preços simbólicos para universidades e centros de pesquisa, sem perceber seu potencial comercial global e de longo prazo.

Décadas depois, o UNIX tornou-se a base de inúmeros sistemas operacionais, incluindo Linux, BSD, Solaris e, indiretamente, macOS e Android. Empresas como Red Hat, IBM, Google e Apple construíram modelos de negócios bilionários sobre essa arquitetura. A AT&T, por sua vez, não capitalizou o valor estratégico do UNIX e perdeu protagonismo em um dos pilares da economia digital.

3. A Kodak inventou a primeira câmera digital funcional em 1975, desenvolvida por um de seus próprios engenheiros. No entanto, a empresa optou por não explorar a tecnologia, temendo que ela canibalizasse seu altamente lucrativo mercado de filmes fotográficos e revelação química. A patente foi subutilizada e a inovação ficou engavetada por décadas.

Empresas como Sony, Canon, Nikon e, posteriormente, fabricantes de smartphones, dominaram o mercado de imagem digital, criando cadeias produtivas bilionárias. A Kodak, presa a um modelo de negócio obsoleto, entrou em colapso financeiro e pediu falência em 2012. O caso tornou-se um dos exemplos mais clássicos de miopia estratégica e falha de governança da inovação.

4. A Nokia, líder absoluta em telefonia móvel no início dos anos 2000, possuía tecnologias avançadas em mobilidade, design de hardware e comunicação sem fio. No entanto, subestimou o valor estratégico do ecossistema de software, especialmente sistemas operacionais modernos e plataformas de aplicativos, tratando-os como acessórios e não como núcleo do negócio.

Com a ascensão do iOS (Apple) e do Android (Google), ambos fortemente protegidos por patentes e integrados a ecossistemas digitais, a Nokia perdeu rapidamente relevância. O Android, em especial, tornou-se a base do maior sistema operacional móvel do mundo, gerando receitas bilionárias indiretas ao Google. A Nokia, apesar de sua base tecnológica, acabou vendendo sua divisão de celulares e perdendo protagonismo global.

5. A IBM, ao lançar seu computador pessoal em 1981, decidiu não proteger rigidamente a arquitetura do PC, adotando componentes de terceiros e permitindo compatibilidade aberta. A empresa considerava o PC um produto secundário frente a seus grandes sistemas corporativos e mainframes, não antecipando a explosão do mercado de computadores pessoais.

Essa decisão permitiu que empresas como Microsoft (com o MS-DOS e depois Windows) e fabricantes de clones como Compaq, Dell e HP dominassem o mercado. A Microsoft, em especial, transformou o licenciamento de software em um dos modelos mais lucrativos da história, alcançando valorizações trilionárias. A IBM permaneceu relevante em outros segmentos, mas abriu mão do maior ciclo de riqueza já gerado na indústria de tecnologia pessoal.

Assim, esses cinco casos revelam um padrão recorrente: o erro não foi técnico, mas estratégico. As empresas pioneiras detinham conhecimento, patentes e capital humano, mas falharam em compreender o valor futuro da inovação e em alinhar governança, visão de longo prazo e modelo de negócios.

 Agora que chegou até aqui, vou contextuar este assunto comercial com a dimensão espiritual. O erro de estratégia que cometeu condenou sua família a uma vida de perdedores. Talvez isso possa acontecer com você no futudo - leitor -, diante de um assunto  espiritaul abstrato hoje que se tornará concreto no futuro. Você já ouviu falar do Reino de Deus? Pois bem no 6º e último erro de estratégia você vai começar a denteder.

6. Esaú, é um personagem bíblico. Foi protagonista do maior  clássico de miopia estratégica registrado na Bíblia Sagrada.  Esaú era primogênito de sua família, e naquele tempo como tal detinha direitos espirituais, jurídicos e econômicos: liderança da família, herança dobrada e participação direta na linhagem da promessa. 

Contudo, movido por uma necessidade imediata e racional, vendeu sua primogenitura por um prato de comida porque estava com muita fome. Com essa atitutde demonstrou achava desprezível e sem valor  um ativo que tinha valor eterno. As Escrituras destacam que ele “desprezou a primogenitura”, revelando não ignorância, mas desdém consciente pelo futuro. E este futuro era uma bênção espiritural que repercutiria no mundo material.

Assim,  a forma como entender o Reino de Deus, hoje, se desprezível e pura perda de tempo ou algo muito valioso, vai contar na balança de Deus que pesa  seu futuro.

O Novo Testamento Bíblico interpreta esse episódio como advertência severa: Esaú perdeu algo irrecuperável, mesmo tendo se arrendido do que fez, já era tarde demais. 

Encerrando, por hoje, não vou conceituar aqui o que é o Reino de Deus. Uma pesquisa básica daria conta do recado.  Mas, vou deixar um subsídio: "O reino dos céus é também semelhante a um comerciante que procura boas pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vendeu tudo o que possuía e a comprou.

O Reino de Deus é o melhor investimento para uma vida inteira. Um legado para as gerações da sua família.

SP - 13/12/2025






quarta-feira, dezembro 10, 2025

Meditação no Capítulo 3 do Livro Profeta Miqueias

 

Profeta Miqueias

João Cruzué

O Capítulo 3 de Miqueias é o ponto mais alto da indignação do profeta contra as lideranças de Judá e Israel. O capítulo se divide em três golpes certeiros, três oráculos que desnudam a corrupção institucional do século VIII a.C. Logo no início, o profeta dirige-se aos governantes que deveriam guardar o mishpat, mas trocaram a justiça pela ganância. Para expor a gravidade do pecado, Miqueias usa imagens que ferem a alma: líderes que arrancam a pele do povo, quebram seus ossos e os lançam na panela como se fossem carne comum. Não era exagero poético; era a radiografia de um sistema que esmagava os vulneráveis por meio de tributos abusivos, perda de propriedades, escravidão por dívida e um Judiciário vendido ao suborno. E diante dessa violência institucionalizada, o profeta anuncia um juízo proporcional: quem não ouviu o clamor dos pobres não será ouvido quando clamar; Deus esconderá o rosto no dia da angústia.

Na segunda parte, Miqueias volta sua mirada contra outro grupo igualmente responsável pela decadência espiritual do povo: os profetas mercenários. Eles tinham transformado a Palavra do Senhor em moeda de troca. Era “shalom” para quem pagava, e ameaça para quem não sustentava seu ministério. A sentença divina cai pesada: para esses homens, o dia se tornaria noite; não haveria visão, não haveria resposta; cobririam o rosto em vergonha porque Deus já não falaria com eles. Em contraste, o profeta verdadeiro se apresenta: “Mas eu estou cheio do poder do Espírito do SENHOR.” Ou seja: onde há vocação genuína, há coragem moral, discernimento espiritual e força para denunciar o pecado — mesmo quando a mensagem fere, mesmo quando custa relacionamentos, posição ou sustento.

O terceiro oráculo abre o leque e coloca toda a engrenagem de Jerusalém sob avaliação. Miqueias vê uma corrupção com três pilares: justiça pervertida, obras públicas construídas à base de sangue, e religião financiada por interesses. Juízes que só julgam mediante propina, sacerdotes que ensinam por salário, profetas que adivinham por dinheiro. E o mais grave: todos esses líderes ainda tinham a ousadia de dizer: “O Senhor está conosco; nenhum mal nos alcançará.” Acreditavam que a simples existência do Templo funcionava como escudo moral. Confundiam privilégio religioso com aprovação divina. Enquanto isso, edificavam uma cidade brilhante sobre os ombros esmagados dos pobres.

É nesse cenário que Miqueias pronuncia uma das profecias mais ousadas da Bíblia: Sião seria arada como um campo, Jerusalém se tornaria em montes de ruínas, e o monte do Templo viraria matagal. A palavra foi tão séria que, um século depois, foi lembrada no julgamento de Jeremias e serviu para lhe salvar a vida. O recado era claro: quando a injustiça domina, nem o Templo — símbolo máximo da presença de Deus — é poupado. Deus não compactua com estruturas religiosas que se tornaram capa para opressão. A cidade santa podia ostentar sua glória, mas suas fundações estavam manchadas.

Miqueias 3 continua a nos confrontar hoje. Questiona líderes: estamos servindo ou nos servindo? Pregamos a verdade ou apenas o que sustenta nossa reputação? Temos coragem de enfrentar sistemas injustos? E questiona a Igreja: não corremos nós o risco de presumir que Deus está conosco apenas porque mantemos templos, programas e prosperidade? Nosso conforto não pode ser construído em cima do sofrimento alheio. A mensagem permanece tão viva quanto no dia em que foi pronunciada.

O capítulo termina ecoando uma verdade que atravessa séculos: Deus não fecha os olhos para a exploração dos fracos; muito menos quando ela é praticada pelas mãos de quem deveria protegê-los. A denúncia de Miqueias desemboca em seu chamado definitivo, que resume a ética do Reino: praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com Deus. Tudo o que passa disso é religião sem vida — e liderança sem autoridade diante do Senhor.



SP-10/12/2025