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domingo, setembro 20, 2026

Um cervo à procura d'água no Salmo 42

 


João Cruzué

O salmo 42 retrata uma imagen linda da poesia hebraica: um cervo que anseia pelas correntes das águas, assim como a alma do salmista anseia pela presença de Deus. No versículo 6, o autor menciona as terras do Jordão, o monte Hermom e o outeiro de Mizar, situando suas recordações em uma região montanhosa ao norte de Israel. O Hermom, cujo cume alcança 2.814 metros de altitude, destaca-se por suas encostas rochosas, vales profundos e importantes nascentes e neve no inverno. Embora o salmo não identifique o local exato de sua composição, essas referências geográficas permitem compreender o ambiente natural que poderia ter inspirado suas imagens poéticas.

Apesar de estar localizado no Oriente Médio, o monte Hermom recebe neve durante os meses de inverno, quando as temperaturas de suas partes elevadas frequentemente descem abaixo de zero. Com a chegada da primavera, o derretimento da neve contribui para alimentar a circulação subterrânea da água através das formações rochosas, favorecendo o abastecimento das nascentes do alto Jordão. Entre os principais cursos de água dessa região encontram-se os rios Dan, Banias e Hasbani, que formam importantes tributários do Jordão. Assim, as águas que descem das montanhas e percorrem os vales compõem um cenário geográfico compatível com as referências naturais utilizadas pelo salmista.

O animal mencionado no texto hebraico é denominado ayyál, tradicionalmente traduzido como cervo ou corça. Entre os cervídeos que habitavam o antigo território de Israel, destaca-se o gamo-da-Pérsia (Dama mesopotamica), embora não seja possível afirmar que essa tenha sido exatamente a espécie mencionada no salmo. Como outros animais selvagens, os cervos necessitam de água e podem modificar seus deslocamentos diante da presença de predadores. A narrativa de um cervo refugiado nas alturas, que permanece sedento por temer descer ao vale, constitui uma ilustração possível dessa tensão entre a necessidade de beber e o instinto de sobrevivência. 

A expressão tradicional «assim como o cervo brama pelas correntes das águas» traduz poeticamente o verbo hebraico arag, que comunica a ideia de suspirar, ansiar ou desejar intensamente. Não se trata de um bramido audível, mas de uma necessidade profunda e urgente. O cervo não procura a água por curiosidade ou simples satisfação: dela depende sua sobrevivência. Ao utilizar essa comparação, o salmista revela a intensidade de seu próprio anseio espiritual. Assim como a água é indispensável à vida do cervo, a comunhão com Deus é  essencial para sua alma.

O contexto do salmo revela que seu autor atravessava um período de profundo abatimento. No versículo 4, ele recorda os dias em que participava das celebrações na Casa de Deus, acompanhado pela multidão, entre cânticos de alegria e louvor. Agora, distante daquele ambiente de adoração, derrama sua alma em lágrimas e pergunta quando poderá novamente comparecer perante a face do Senhor. A referência ao Jordão e ao Hermom reforça a percepção de afastamento geográfico do lugar de culto, embora o texto não esclareça as circunstâncias que provocaram essa separação. Sua tristeza, entretanto, não decorre apenas da distância física do santuário, mas da saudade da comunhão com o Deus vivo, que constituía o centro de sua adoração.

No versículo 7, o salmista declara: «Um abismo chama outro abismo, ao fragor das tuas catadupas; todas as tuas ondas e vagas passaram sobre mim». A região do Hermom apresenta cursos de água que descem por terrenos acidentados, formando corredeiras e quedas de água, cenário que ajuda a visualizar a força dessa linguagem poética. Entretanto, o versículo não descreve necessariamente uma cachoeira específica, mas utiliza a intensidade das águas como imagem do sofrimento. Existe aqui um contraste significativo: no início do salmo, o animal procura desesperadamente a água necessária à vida; posteriormente, o salmista sente-se submerso por ondas sucessivas de aflição. A mesma natureza que oferece a imagem da sede fornece também a representação da intensidade de sua angústia.

Apesar de sua tristeza, o salmista não abandona a confiança no Senhor. Ele reconhece seu abatimento, mas dirige à própria alma uma exortação: «Espera em Deus, pois ainda o louvarei» (Salmo 42:5). Sua experiência demonstra que a fé não significa ausência de sofrimento, tampouco impede que o servo de Deus atravesse momentos de tristeza, solidão e aparente distanciamento espiritual. Mesmo em meio às lágrimas e às provocações daqueles que perguntavam onde estava o seu Deus, o salmista continuava orando e lembrando-se da fidelidade divina. Seu relacionamento com o Senhor não estava fundamentado exclusivamente nas circunstâncias favoráveis, mas na esperança de que ainda voltaria a experimentar a alegria de sua presença.

A essência do salmo encontra-se na declaração: «A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo» (Salmo 42:2). O salmista não apresenta a prosperidade, o livramento dos inimigos ou o retorno ao santuário como sua necessidade mais profunda; seu desejo central é o próprio Deus. 

A imagem do cervo sedento ensina que a alma humana pode experimentar uma necessidade espiritual que nenhuma satisfação exterior é capaz de substituir. A geografia das montanhas, a neve que alimenta as nascentes, os rios que percorrem os vales e as águas que descem impetuosamente contribuem para ilustrar essa verdade, mas não constituem o centro da mensagem. 

O salmo revela que, mesmo quando o sofrimento parece envolver toda a existência, o servo de Deus pode dirigir sua sede espiritual ao Senhor e nele depositar sua esperança. Assim como o cervo necessita da água para viver, a alma do salmista reconhece em Deus a fonte indispensável de sua vida espiritual.


SP-20/09/2026.